A todos os nossos irmãos no episcopado, aos presbíteros e diáconos,
às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos da Santa Igreja Católica,
graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai, por Jesus Cristo, Nosso Senhor.
PROÊMIO
1. A Igreja de Cristo, fundada sobre o sólido fundamento dos Apóstolos e edificada tendo o próprio Senhor como pedra angular, caminha através dos séculos sustentada pela promessa daquele que disse aos seus discípulos: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28,20). Esta promessa, que constitui a certeza e a esperança do Povo de Deus, recorda-nos que a Igreja, embora viva e atue no curso da história e seja composta por homens e mulheres sujeitos às limitações próprias da condição humana, não é abandonada pelo seu Senhor, mas continuamente vivificada e conduzida pelo Espírito Santo, que Cristo enviou para permanecer com os seus discípulos e para os guiar na plenitude da verdade, conforme está escrito: «Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vos guiará para toda a verdade» (Jo 16,13).
2. Ao longo da sua história, a Igreja conheceu tempos de grande expansão e fervor missionário, períodos de consolidação e florescimento espiritual, mas também momentos de dificuldade, de crise e de necessária purificação. Em cada uma dessas circunstâncias, porém, a Igreja foi chamada não a abandonar a sua identidade, nem a substituir a verdade recebida por outra conforme às conveniências de cada época, mas a regressar constantemente à fonte da sua própria vida, que é Cristo, e a renovar a sua fidelidade à missão que d'Ele recebeu. Com efeito, «Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e pelos séculos» (Heb 13,8), e, por isso, toda a legítima renovação da igreja só pode encontrar o seu verdadeiro fundamento na fidelidade Àquele que é Senhor da Igreja e na escuta dócil do Espírito Santo que continua a agir no meio do Povo de Deus.
3. O Concílio Ecuménico Vaticano II, ao contemplar o mistério da Igreja, ensinou que ela é, em Cristo, «como que o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen gentium, 1). Esta verdade conduz-nos a reconhecer que a Igreja não existe para si mesma, nem as suas estruturas, instituições, ministérios e ordenamentos possuem um fim autónomo; todos eles existem para servir a missão que Cristo confiou aos seus discípulos, isto é, anunciar o Evangelho, santificar o Povo de Deus e conduzir os homens à comunhão com o Pai.
4. É precisamente nesta perspetiva que, depois de amaduro discernimento e considerando as necessidades presentes da nossa Igreja, julgamos oportuno convocar um tempo extraordinário de reflexão, de escuta e de discernimento pastoral, para que, permanecendo firmemente enraizados na fé recebida e na legítima Tradição da Igreja, possamos examinar com responsabilidade os caminhos pelos quais somos chamados a cumprir a nossa missão no presente e a preparar o futuro da comunidade católica habbletiana.
5. Não se trata de imaginar uma nova Igreja, como se aquela fundada por Cristo pudesse ser substituída pela vontade ou pelas preferências dos homens, nem de considerar a renovação como uma rutura com aquilo que recebemos das gerações que nos precederam. A Igreja não começa connosco, e nenhum tempo histórico possui o direito de considerar-se proprietário da fé que recebeu. Somos, antes, seus guardiões e servidores. Contudo, guardar o depósito da fé não significa encerrá-lo numa realidade incapaz de comunicar com os homens e mulheres do seu tempo. A mesma fé apostólica, permanecendo una e imutável naquilo que lhe pertence essencialmente, é continuamente anunciada, celebrada e vivida por uma Igreja que caminha na história e que, por isso, deve saber discernir as formas mais adequadas para cumprir a sua missão.
6. A renovação que desejamos promover deve, portanto, ser entendida como um regresso mais profundo às fontes, uma conversão das nossas atitudes e estruturas à luz do Evangelho e uma procura sincera dos meios pelos quais a vida pastoral possa tornar-se mais fecunda, ordenada, participada e capaz de acolher aqueles a quem Cristo chama. «Eis que faço novas todas as coisas» (Ap 21,5), diz o Senhor; e estas palavras não anunciam a destruição daquilo que procede de Deus, mas a obra permanente da graça, que purifica, transforma e conduz todas as coisas à sua plenitude.
I.
DA NECESSIDADE DE ESCUTAR O POVO DE DEUS
7. A Igreja, enquanto Corpo de Cristo, é constituída por uma diversidade de vocações, ministérios e carismas, todos ordenados à unidade da mesma missão. «Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos» (1 Cor 12,4-6). Por esta razão, nenhuma reflexão séria sobre a vida da Igreja pode ignorar a contribuição daqueles que, pelo Batismo, foram incorporados em Cristo e constituídos membros do Povo de Deus.
8. O Concílio Vaticano II recordou com particular clareza a dignidade própria dos fiéis leigos e a sua participação na missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. Os leigos não são simples espectadores da vida da igreja, nem meros destinatários da ação pastoral; segundo a sua condição e vocação próprias, são chamados a cooperar na missão da Igreja e a testemunhar o Evangelho no meio do mundo. Ao mesmo tempo, a participação de todos os batizados na vida ativa da igreja não pode ser compreendida fora da comunhão da Igreja, da sua constituição apostólica e da missão própria daqueles que receberam o ministério pastoral.
9. Neste sentido, desejamos que o caminho que agora iniciamos seja marcado por uma verdadeira e responsável escuta do Povo de Deus. A escuta, porém, não deve ser confundida com a simples recolha de opiniões, nem o discernimento pode ser reduzido à lógica de uma assembleia parlamentar. A Igreja não é fundada sobre a soma das vontades individuais, mas sobre Cristo, e a verdade revelada não é determinada por maiorias. Todavia, também seria contrário à natureza imaginar uma Igreja incapaz de escutar os seus próprios filhos, indiferente às suas dificuldades ou insensível às experiências concretas daqueles que procuram viver a fé.
10. O próprio Senhor Jesus, no caminho de Emaús, aproximou-Se dos discípulos que caminhavam desanimados e perguntou-lhes: «Que palavras são essas que ides trocando pelo caminho?» (Lc 24,17). Aquele que conhecia os pensamentos dos seus corações quis, contudo, caminhar com eles, ouvir a sua tristeza e conduzi-los, a partir daquilo que viviam, a uma compreensão mais profunda das Escrituras e do mistério da sua Ressurreição. Esta imagem oferece-nos um verdadeiro paradigma pastoral: a Igreja deve saber caminhar com os seus filhos, escutando as suas perguntas, as suas dificuldades e as suas esperanças, para depois, iluminada pela Palavra de Deus e pela sabedoria da Tradição, ajudá-los a reconhecer a presença de Cristo no seu caminho.
11. Por isso, estabelecemos que o caminho preparatório do I Sínodo de Latrão seja antecedido por um Tempo Geral de Escuta, no qual todos os fiéis leigos serão chamados a participar de maneira livre, responsável e ordenada. Desejamos que sejam escutados aqueles que vivem quotidianamente a vida das nossas comunidades, aqueles que exercem algum ministério ou serviço pastoral, os jovens, as famílias, os idosos, os que se encontram próximos do serviço e também aqueles que, por diferentes razões, se foram afastando, mas continuam a conservar no coração o desejo de serem acolhidos e de encontrar novamente o seu lugar na comunidade.
12. Esta escuta deverá realizar-se num espírito de comunhão e respeito pela fé da Igreja. Não se pretende transformar o processo sinodal num espaço de confronto entre grupos ou numa disputa sobre quem possui maior influência, mas criar condições para que as legítimas preocupações, necessidades e propostas dos fiéis possam ser conhecidas, avaliadas e discernidas pelos organismos competentes. A escuta deverá ser sincera, mas também responsável; aberta, mas profundamente enraizada na unidade; acolhedora das perguntas, mas consciente de que nem toda a resposta pode ser encontrada na opinião humana, pois a Igreja é chamada, antes de tudo, a escutar o próprio Deus.
II.
DA CONVOCAÇÃO DO I SÍNODO DE LATRÃO
13. Por conseguinte, depois de oração e madura consideração, movidos pelo desejo de favorecer uma renovação pastoral que fortaleça a comunhão, aperfeiçoe a organização da Igreja e permita responder com maior fidelidade aos desafios da nossa missão, pela autoridade apostólica que nos compete, CONVOCAMOS o I SÍNODO DE LATRÃO, que será celebrado na Arquibasílica Papal do Santíssimo Salvador e dos Santos João Batista e Evangelista de Latrão, Mãe e Cabeça de todas as igrejas da Cidade e do Mundo.
14. Determinamos que a abertura solene dos trabalhos sinodais tenha lugar no dia 3 de setembro do Ano do Senhor de 2026, data a partir da qual se iniciará formalmente este caminho de discernimento e reorganização pastoral da Igreja.
15. A escolha da Arquibasílica de São João de Latrão para sede deste acontecimento possui um significado particular. Enquanto igreja catedral do Bispo de Roma e sinal da unidade e da comunhão entre todos, o Latrão recorda-nos que toda a renovação autêntica deve permanecer unida à Igreja universal e à sua constituição apostólica. Reunir-nos neste lugar significa reconhecer que não iniciamos um caminho isolado ou desligado da nossa identidade, mas procuramos, precisamente, fortalecer os vínculos que nos unem à tradição viva da Igreja e à missão que nos foi confiada.
16. Desejamos que o I Sínodo de Latrão não seja compreendido como um simples encontro administrativo destinado a produzir normas ou a resolver questões internas, mas como um verdadeiro acontecimento à luz dos povos, preparado pela oração e pela escuta, sustentado pelo estudo e pelo discernimento e orientado para a renovação concreta da ação pastoral. Antes de qualquer deliberação, deverá existir a procura sincera da vontade de Deus; antes de qualquer reforma, deverá existir uma consciência clara daquilo que a Igreja é e daquilo para que existe. Como recorda o Salmista: «Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem» (Sl 127,1).
III.
DAS MATÉRIAS A SEREM TRATADAS PELO SÍNODO
17. Para que os trabalhos possuam uma orientação clara e possam contribuir de maneira efetiva para a reorganização pastoral da Igreja, determinamos que o I Sínodo de Latrão se desenvolva em torno de três grandes áreas de reflexão e estudo: a Temática Litúrgica, a Temática Canónica-Magisterial e a Temática da História e da Memória desta Igreja viva à 16 anos, sendo eles:
I. Da Temática Litúrgica
A primeira área de reflexão será dedicada à Sagrada Liturgia, que constitui o centro da vida da Igreja e a expressão mais elevada da sua ação santificadora. A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que a Liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo e que, nela, se realiza a obra da nossa redenção. Por isso, qualquer reflexão sobre a organização pastoral da Igreja deve necessariamente considerar o lugar que a Liturgia ocupa na vida das comunidades e a maneira como os mistérios da fé são celebrados, compreendidos e vividos pelos fiéis.
A Liturgia não pode ser reduzida a uma simples sucessão de cerimónias, nem pode ser considerada propriedade pessoal daqueles que a presidem ou organizam. Ela pertence à Igreja e constitui uma ação de Cristo e do seu Corpo. Ao mesmo tempo, uma celebração que se limite à execução exterior de formas, sem conduzir os fiéis a uma participação consciente e interior no mistério celebrado, corre o risco de perder a sua capacidade evangelizadora e santificadora.
Por esta razão, o Sínodo deverá examinar a formação litúrgica dos ministros e dos fiéis, a dignidade e a ordem das celebrações, a correta aplicação das normas, a valorização dos sinais e símbolos próprios da tradição da igreja e os meios necessários para evitar, simultaneamente, o formalismo desprovido de vida espiritual e os abusos que descaracterizam a natureza da ação litúrgica. Será igualmente importante refletir sobre a forma como a Liturgia pode tornar-se verdadeiramente fonte de unidade, de catequese e de renovação espiritual para as comunidades.
Desejamos uma vida litúrgica marcada pela reverência, pela beleza e pela fidelidade, mas também por uma verdadeira capacidade de conduzir o Povo de Deus ao encontro com Cristo. Aquilo que é celebrado no altar deve encontrar continuidade na vida daqueles que participam nos santos mistérios, pois a Liturgia não termina quando a assembleia se dispersa: ela prolonga-se na caridade, no testemunho e na missão quotidiana dos fiéis.
II. Da Temática Canónica-Magisterial
A segunda grande área do I Sínodo de Latrão será dedicada à reflexão sobre a organização canónica e a missão magisterial da Igreja. A Igreja, enquanto comunhão espiritual e realidade visível, necessita de estruturas, normas e responsabilidades que permitam ordenar a sua vida, proteger a justiça, assegurar a comunhão e favorecer o cumprimento da sua missão.
Todavia, as estruturas e as leis eclesiais não constituem um fim em si mesmas. O seu verdadeiro sentido encontra-se no serviço ao bem da Igreja e à salvação das almas. Toda a organização canónica deve, portanto, ser avaliada à luz da sua capacidade de favorecer uma vida mais correta, responsável e eficaz, sem perder de vista que a autoridade na Igreja é, por natureza, uma forma de serviço.
O próprio Senhor ensinou aos seus discípulos que aquele que deseja ser grande deve tornar-se servidor dos outros: «Quem quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que vos serve» (Mt 20,26). Esta palavra deve orientar todos aqueles que exercem qualquer responsabilidade na Igreja, pois o ministério e a autoridade não podem ser compreendidos como instrumentos de prestígio ou domínio, mas como um encargo assumido para a edificação do Corpo de Cristo.
O Sínodo deverá, portanto, estudar a organização das dioceses, paróquias e demais organismos eclesiais; as competências e responsabilidades dos diversos ofícios e ministérios; os mecanismos de participação e consulta pastoral; a clareza e atualização das normas internas; a administração da justiça; a responsabilidade daqueles que exercem cargos e ministérios; e os meios pelos quais a autoridade pode ser exercida de maneira cada vez mais transparente, responsável e orientada para a comunhão.
No mesmo âmbito, será dedicada especial atenção à dimensão magisterial da Igreja e à necessidade de uma formação doutrinal sólida. Num tempo em que as informações se multiplicam com grande rapidez e em que frequentemente se confundem opiniões pessoais com ensinamentos oficiais, torna-se indispensável fortalecer a clareza na transmissão da fé e oferecer aos fiéis instrumentos adequados para conhecerem aquilo que a Igreja crê, celebra e ensina.
A abertura pastoral que desejamos promover não poderá jamais significar indiferença perante a verdade. Pelo contrário, somente a verdade, vivida na caridade, possui a capacidade de libertar e conduzir o homem à plenitude. «Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» (Jo 8,32). Assim, a Igreja é chamada a anunciar com clareza aquilo que recebeu, mas deve fazê-lo segundo o exemplo de Cristo, que nunca separou a verdade da misericórdia nem a exigência evangélica da proximidade para com aqueles que procuravam a salvação.
III. Da Temática da História e da Memória da Igreja
A terceira área de reflexão será dedicada à História e à Memória da Igreja, pois nenhuma comunidade pode compreender plenamente a sua identidade se ignora o caminho que percorreu. A memória não deve servir para alimentar nostalgias ou para perpetuar conflitos, mas para ajudar o presente a compreender as suas raízes, reconhecer os seus erros e preservar aquilo que, ao longo do tempo, constituiu expressão autêntica da vida e da missão da Igreja.
A Sagrada Escritura convida o Povo de Deus a recordar as obras do Senhor e a aprender com o caminho das gerações anteriores: «Lembrai-vos dos dias antigos, considerai os anos das gerações passadas» (Dt 32,7). Esta memória, porém, não é um simples exercício intelectual. Ela permite reconhecer a fidelidade de Deus ao seu povo e, ao mesmo tempo, contemplar com humildade as fragilidades humanas que tantas vezes marcaram a nossa história.
O I Sínodo de Latrão deverá, por isso, dedicar espaço ao estudo da caminhada histórica da nossa Igreja, iniciada em 2010, desde as suas instituições, das suas experiências pastorais, dos seus períodos de crescimento e das suas crises. Será necessário examinar aquilo que produziu frutos duradouros, reconhecer os erros cometidos e compreender as razões pelas quais determinadas estruturas ou práticas responderam às necessidades de uma época, mas talvez já não sejam suficientes para os desafios do presente.
Não desejamos, contudo, utilizar a história para julgar com arrogância aqueles que nos precederam, como se a nossa geração estivesse isenta das mesmas fragilidades. A verdadeira consciência histórica conduz à humildade. Conhecer o passado significa compreender que também nós somos responsáveis por aquilo que transmitiremos às gerações futuras e que as decisões tomadas hoje contribuirão para formar a memória de amanhã.
IV.
DO TEMPO PREPARATÓRIO DE ESCUTA NAS PARÓQUIAS E DIOCESES
18. Determinamos, portanto, que todas as paróquias, dioceses e demais comunidades eclesiais promovam, antes do início formal dos trabalhos do I Sínodo de Latrão, um amplo processo de escuta dos fiéis. Este processo deverá procurar recolher, de maneira organizada, as experiências, dificuldades, necessidades e propostas daqueles que participam na vida da Igreja, de modo particular no que diz respeito às três matérias que constituirão o núcleo dos trabalhos sinodais.
19. Pedimos aos pastores e responsáveis pelas comunidades que não encarem esta determinação como uma mera formalidade administrativa. A escuta que agora solicitamos deve nascer de uma verdadeira preocupação pastoral. Muitas vezes, aqueles que vivem quotidianamente a realidade das nossas comunidades conseguem identificar dificuldades que não são imediatamente percebidas pelos organismos de governo; outras vezes, são precisamente os fiéis que, com a sua experiência e dedicação, oferecem sugestões capazes de enriquecer a ação pastoral.
20. Por isso, as contribuições recolhidas deverão ser tratadas com seriedade e respeito. Não se exige que toda proposta seja automaticamente adotada, pois o discernimento exige estudo, avaliação e fidelidade à natureza da Igreja; exige-se, porém, que aquilo que for apresentado pelos fiéis seja verdadeiramente considerado e que o processo de consulta não se transforme numa simples aparência de participação.
21. Solicitamos às paróquias e dioceses que promovam encontros, consultas e outros meios adequados à realidade de cada comunidade, procurando garantir a participação do maior número possível de fiéis. As questões apresentadas deverão ser organizadas e sintetizadas, de modo a permitir que os principais assuntos levantados pelo Povo de Deus possam chegar aos responsáveis pela preparação do Sínodo e ser considerados na elaboração dos instrumentos de trabalho.
22. Desejamos, de maneira particular, que este processo permita identificar não apenas aquilo que necessita de correção, mas também aquilo que merece ser preservado e fortalecido. A renovação pastoral não pode ser construída exclusivamente a partir da identificação dos problemas. É igualmente necessário reconhecer as experiências que produzem frutos, os ministérios que servem com fidelidade, as comunidades que vivem autenticamente a fraternidade e todas as iniciativas que manifestam a presença viva do Evangelho.
V.
POR UMA IGREJA MAIS ABERTA E ACOLHEDORA
23. Um dos frutos que esperamos deste caminho sinodal é o amadurecimento de uma consciência pastoral cada vez mais capaz de reconhecer a Igreja como casa e família de Deus. Desejamos que a reorganização que vier a resultar deste processo contribua para uma Igreja mais aberta à escuta, mais próxima dos seus fiéis, mais capaz de acompanhar aqueles que vivem dificuldades e mais consciente de que a missão evangelizadora exige, antes de tudo, uma presença concreta no meio das pessoas.
24. Ser uma Igreja acolhedora não significa renunciar à sua identidade ou relativizar a verdade que recebeu. Pelo contrário, a verdadeira acolhida torna-se possível precisamente porque a Igreja sabe quem é e a Quem pertence. Cristo acolhia aqueles que se aproximavam d'Ele, aproximava-Se dos pecadores e dos marginalizados e oferecia-lhes a misericórdia do Pai, mas chamava igualmente à conversão e a uma vida nova. A misericórdia e a verdade não são realidades opostas; encontram-se plenamente na pessoa do próprio Cristo.
26. Por isso, desejamos que o processo sinodal examine com sinceridade o nosso modus operandi, isto é, a maneira concreta como as nossas estruturas, comunidades e ministérios realizam a missão que lhes foi confiada. Devemos interrogar-nos sobre a forma como acolhemos aqueles que chegam às nossas comunidades, como acompanhamos aqueles que se encontram em dificuldade, como resolvemos os conflitos, como formamos os nossos membros e como permitimos que cada batizado encontre um lugar adequado para exercer os seus dons ao serviço da Igreja.
26. Uma comunidade que se fecha sobre si mesma corre o risco de esquecer que foi enviada. A Igreja nasceu para evangelizar e para levar Cristo ao mundo; por isso, toda reorganização pastoral deve ser avaliada também a partir da sua capacidade missionária. Não podemos organizar as nossas estruturas apenas para garantir o seu funcionamento interno; devemos organizá-las para que sejam instrumentos de evangelização, de comunhão e de serviço.
27. O Papa São Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, recordou que a evangelização constitui a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda. Esta afirmação deve acompanhar os nossos trabalhos, pois uma reorganização que não conduzisse a uma maior capacidade de anunciar o Evangelho seria incapaz de cumprir plenamente a finalidade que agora propomos.
VI.
DA COMUNHÃO E DA CORRESPONSABILIDADE COMO IGREJA
28. O caminho sinodal deverá ser vivido no espírito da comunhão. Não desejamos que as diferentes sensibilidades existentes na Igreja se transformem em motivo de oposição ou em instrumentos de divisão. A diversidade, quando vivida na unidade da fé e na caridade, pode constituir uma riqueza; quando, porém, se transforma em competição ou em desejo de prevalecer sobre os outros, deixa de servir a Igreja e passa a ferir a comunhão.
29. São Paulo recorda-nos que, embora existam muitos membros, todos formamos um só Corpo em Cristo. Nenhum membro pode considerar-se dispensável, nem pode agir como se existisse independentemente dos demais. Esta imagem do Corpo de Cristo deve orientar o nosso caminho. Pastores, ministros, consagrados e leigos possuem vocações distintas, mas todos participam da mesma missão e todos são chamados a trabalhar para que a Igreja cumpra a vontade do seu Senhor.
30. É neste sentido que desejamos promover uma maior corresponsabilidade pastoral. A participação dos leigos não significa a eliminação dos ministérios ordenados, assim como o exercício da autoridade pastoral não deve significar a exclusão daqueles que, pelo Batismo, receberam dons destinados à edificação da comunidade. A comunhão da igreja realiza-se precisamente quando cada vocação encontra o seu lugar próprio e quando os diferentes serviços são exercidos não em concorrência, mas em colaboração.
31. O exemplo do Concílio de Jerusalém, narrado nos Atos dos Apóstolos, permanece particularmente significativo. Diante de uma questão que dizia respeito à vida e à missão da Igreja nascente, os Apóstolos e os presbíteros reuniram-se para discernir, escutando, discutindo e procurando reconhecer a vontade de Deus. Ao final desse processo, puderam afirmar: «O Espírito Santo e nós decidimos...» (At 15,28). Esta expressão, que manifesta a união entre a ação divina e a responsabilidade humana, deverá inspirar também o nosso caminho.
VII.
EXORTAÇÃO A TODO O POVO DE DEUS
32. Exortamos, portanto, todos os filhos e filhas da Igreja a acolherem esta convocação com espírito de fé e esperança. O I Sínodo de Latrão não poderá produzir frutos se for considerado apenas responsabilidade daqueles que ocuparão formalmente os lugares de participação nos seus trabalhos. Este é um caminho de toda a Igreja, e todos são chamados, segundo a sua vocação e possibilidade, a contribuir para ele.
33. Pedimos aos pastores que preparem as suas comunidades para este momento, favorecendo um clima de oração e comunhão; aos membros da vida consagrada, que acompanhem este caminho com o testemunho da sua entrega e com a intercessão; aos leigos, que participem com responsabilidade e amor pela Igreja, apresentando as suas experiências e preocupações com sinceridade, mas também com espírito construtivo; e aos jovens, de maneira especial, que não tenham receio de oferecer a sua visão e as suas perguntas, pois a Igreja necessita também da sua presença, da sua esperança e da sua capacidade de olhar para o futuro.
34. Pedimos igualmente que aqueles que se encontram afastados ou que, por diferentes razões, se sentem pouco integrados na vida das nossas comunidades, possam considerar este Tempo de Escuta como um convite sincero para se aproximarem. A Igreja deve saber escutar também as feridas provocadas pelas suas próprias limitações humanas e deve possuir a humildade necessária para reconhecer aquilo que precisa de ser corrigido.
35. Acreditamos firmemente que este caminho, se vivido na oração e na comunhão, poderá tornar-se uma oportunidade de renovação espiritual e pastoral. Não depositamos a nossa esperança exclusivamente nas decisões humanas, nas estruturas ou nos documentos que possam resultar deste Sínodo. A nossa esperança encontra-se em Cristo, que continua presente no meio da sua Igreja e que prometeu não abandonar aqueles que chamou.
36. Por isso, confiamos este caminho ao Espírito Santo, pedindo que ilumine os trabalhos preparatórios, purifique as intenções de todos os participantes e conceda à Igreja a sabedoria necessária para distinguir aquilo que deve ser preservado, aquilo que necessita de ser aperfeiçoado e aquilo que, tendo deixado de servir adequadamente à missão, deverá ser reorganizado.
VIII.
DISPOSIÇÕES FINAIS
37. Pela presente Bula, decretamos e estabelecemos, com a plenitude da nossa autoridade apostólica, o seguinte:
Artigo 1.º — É oficialmente convocado o I SÍNODO DE LATRÃO, destinado à reflexão e reorganização pastoral da Igreja Católica.
Artigo 2.º — O Sínodo terá início solene no dia 3 de setembro de 2026, na Arquibasílica Papal de São João de Latrão.
Artigo 3.º — Os trabalhos sinodais desenvolver-se-ão, de modo principal, em torno de três áreas fundamentais: a Liturgia; a dimensão Canónica e Magisterial; e a História e Aquisciência.
Artigo 4.º — Antes da abertura dos trabalhos sinodais, será instituído um Tempo Geral de Escuta, destinado à consulta e recolha das contribuições dos fiéis, com especial participação dos leigos.
Artigo 5.º — As paróquias, dioceses e demais comunidades eclesiais deverão promover os meios adequados para realizar um levantamento geral das necessidades, dificuldades, experiências e propostas dos fiéis, especialmente no âmbito das matérias estabelecidas para o Sínodo.
Artigo 6.º — As contribuições recolhidas deverão ser devidamente organizadas e encaminhadas aos organismos responsáveis pela preparação dos trabalhos sinodais, para que possam ser objeto de estudo e discernimento na elaboração dos instrumentos e propostas do Sínodo.
Artigo 7.º — O processo de escuta e participação deverá realizar-se sempre em comunhão com a fé da Igreja, a Sagrada Tradição, o Magistério e a legítima constituição da igreja, de modo que a abertura à participação do Povo de Deus fortaleça, e jamais enfraqueça, a unidade da Igreja.
Artigo 8.º — Todas as comunidades eclesiais são vivamente exortadas a promover momentos de oração e invocação ao Espírito Santo durante todo o período preparatório e ao longo da realização do I Sínodo de Latrão.
Artigo 9.º — Os organismos competentes deverão oportunamente estabelecer as normas particulares relativas à preparação, participação, metodologia dos trabalhos, apresentação das contribuições e demais disposições necessárias à adequada realização do Sínodo.
Artigo 10.º — Tudo quanto foi estabelecido na presente Bula deverá entrar em vigor a partir da sua publicação, não obstante quaisquer disposições em contrário.
38. Ao concluir esta nossa convocação, elevamos o pensamento à Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, que permaneceu unida aos discípulos em oração, aguardando a vinda do Espírito Santo (cf. At 1,14). À sua materna intercessão confiamos o I Sínodo de Latrão, para que Ela nos ensine a guardar a Palavra, a escutar com humildade, a perseverar nas dificuldades e a permanecer sempre unidos em torno de Cristo.
39. Invocamos igualmente a proteção dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos que, ao longo dos séculos, serviram a Igreja com fidelidade. Que o Espírito Santo desça sobre todo o Povo de Deus e faça deste caminho um verdadeiro tempo de graça, de reconciliação, de renovação e de esperança, para que, permanecendo firmes na fé recebida e conscientes das exigências da missão que nos é confiada, possamos construir uma Igreja pastoralmente mais organizada, espiritualmente mais viva, verdadeiramente acolhedora e cada vez mais fiel ao mandato do seu Senhor.
Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 21 de agosto do ano do Senhor de dois mil e vinte e seis, primeiro do meu Pontificado.
+ PAULUS PP. VII
Servus Servorum Dei
Servus Servorum Dei
