A todos quantos lerem estas minhas letras, saúde, paz e bênção apostólica.
Meus queridos irmãos e irmãs,
Reunimo-nos hoje não para celebrar uma conquista, nem para anunciar um novo projeto, nem sequer para proclamar uma vitória. Reunimo-nos diante de um momento particularmente difícil, daqueles momentos que nenhum homem que ama verdadeiramente a Igreja deseja viver, mas que, por vezes, se tornam necessários para que a própria Igreja possa continuar o seu caminho.
Falo-vos hoje não apenas como Pontífice, não apenas como aquele a quem foi confiada a Cátedra de Pedro, mas como um irmão entre irmãos, como um homem que, ao longo deste caminho, conheceu a alegria de servir, a responsabilidade de conduzir, o peso das decisões, as dificuldades dos tempos presentes e, sobretudo, a grandeza de uma missão que nunca pertence verdadeiramente àquele que a exerce.
O Pontificado nunca foi, para mim, um título. Nunca o compreendi como uma honra pessoal. Nunca o considerei como uma posição de poder. O ministério de Pedro é serviço. É entrega. É sacrifício. É responsabilidade. É colocar a própria vida à disposição da Igreja e do Evangelho.
Quando um homem recebe esta missão, não recebe para si uma coroa, mas recebe sobre os seus ombros uma cruz. Não recebe privilégios, mas responsabilidades. Não recebe a Igreja para fazer dela aquilo que deseja, mas recebe a missão de guardá-la, servi-la e conduzi-la, tanto quanto lhe for possível, pelos caminhos da fé.
E foi precisamente por compreender a grandeza desta missão que hoje vos falo com o coração pesado, mas com a consciência serena. Durante este tempo, caminhámos juntos. Tivemos momentos de esperança. Tivemos momentos de dificuldade. Tivemos momentos em que parecia que tudo poderia avançar com força renovada e outros em que o silêncio, a ausência e a falta de compromisso se fizeram sentir de forma particularmente dolorosa.
Não vos falo estas palavras movido pela ira. Não vos falo movido pelo ressentimento. Não venho aqui apontar dedos. Não venho condenar ninguém. Mas também não posso esconder aquilo que sinto. Um pastor não deve mentir ao seu rebanho. E eu não Quero terminar este caminho escondendo-vos a verdade do meu coração.
Estou cansado. Estou profundamente fatigado.
O peso destes anos, das responsabilidades, das decisões, das preocupações e, sobretudo, da constante necessidade de procurar manter viva uma missão que muitas vezes encontrou ausência onde deveria encontrar presença, encontrou silêncio onde deveria encontrar compromisso e encontrou hesitação onde deveria existir disponibilidade, foi-se acumulando dentro de mim.
Por diversas vezes procurei continuar. Por diversas vezes procurei encontrar forças onde já quase não as encontrava. Por diversas vezes pensei que talvez o dia seguinte trouxesse uma nova esperança, uma nova disponibilidade, uma nova resposta.
E muitas vezes essa esperança sustentou-me.
Mas chega um momento em que um homem precisa de reconhecer os seus próprios limites. Também o Papa é um homem. Também o Papa se cansa. Também o Papa sente o peso dos dias. Também o Papa conhece a solidão. E também o Papa precisa de reconhecer quando já não possui, dentro de si, a força necessária para exercer este ministério com a dedicação que ele exige.
A minha indisponibilidade, fruto também das circunstâncias e das limitações que fui sentindo, tornou-se uma realidade que não posso ignorar. A Igreja merece um pastor presente. A Igreja merece um Pontífice disponível. A Igreja merece alguém que possa entregar-se plenamente à missão que lhe é confiada. E eu seria injusto para com a Igreja se permanecesse simplesmente porque me custa partir.
Seria injusto para com o Povo de Deus se colocasse os meus sentimentos pessoais acima das necessidades da Igreja. Seria injusto para com o próprio ministério petrino se transformasse o serviço em permanência por vontade pessoal.
Por isso, depois de muita reflexão, de oração e de exame de consciência, cheguei à decisão que hoje vos comunico. Uma decisão que não nasce de um único momento. Uma decisão que não nasce de uma discussão. Uma decisão que não nasce do desejo de abandonar aqueles que caminharam comigo.
Pelo contrário.
É precisamente porque amo esta Igreja que compreendo que, por vezes, amar também significa saber entregar. É chegado o momento de outro homem assumir esta missão.
Outro homem deverá receber o peso desta cruz. Outro homem deverá reunir aqueles que estão dispersos. Outro homem deverá renovar a esperança. Outro homem deverá procurar aproximar novamente aqueles que se afastaram. Outro homem deverá continuar aquilo que nós começámos. E não digo isto com tristeza apenas.
Digo-o também com esperança, porque a Igreja não termina com um Pontificado.
A Igreja continua. A missão continua. O Evangelho continua. Cristo continua. Pedro passa, os seus sucessores passam, os servidores passam, mas a Igreja permanece.
Por isso, ninguém deve olhar para este momento como o fim da nossa caminhada.
Este não é o fim!
É uma passagem. É uma entrega. É a abertura de uma nova etapa.
Aos Senhores Cardeais, quero dirigir uma palavra particular.
Vós fostes chamados a servir a Igreja nos momentos mais importantes da sua caminhada. Carregais uma responsabilidade que não é pequena. Peço-vos que, quando chegar o momento de escolher aquele que deverá suceder-me, não procureis simplesmente o homem mais conhecido, o mais influente ou aquele que melhor saiba falar.
Procurai um homem que saiba servir. Procurai um homem de oração. Procurai um homem capaz de ouvir. Procurai um homem que não tenha medo de reconhecer as próprias limitações. Procurai um homem que saiba aproximar.
A Igreja não precisa de um soberano: precisa de um pastor!
Aos Senhores Bispos, peço-vos que permaneçais próximos das vossas comunidades, próximos dos sacerdotes e próximos daqueles que tantas vezes não têm voz. Não permitais que as estruturas sejam maiores do que a missão. Não permitais que os cargos sejam maiores do que o serviço. Não permitais que a burocracia esconda o rosto de Cristo.
Aos sacerdotes, meus queridos irmãos no ministério, digo-vos: não esqueçais por que razão fostes chamados. O sacerdote não existe para si mesmo. O sacerdote existe para servir. A sua vida deve ser uma porta aberta: uma mão estendida. Uma presença. Uma palavra. Uma oração.
Não permitais que a ausência se torne normal. Não permitais que o compromisso seja substituído pela indiferença.
A Igreja precisa de sacerdotes presentes, disponíveis e comprometidos.
E aos leigos que desempenham funções na Cúria e nos diversos organismos da Igreja, digo-vos igualmente: o vosso trabalho possui dignidade e importância. Nunca penseis que servir nos bastidores significa servir menos.
Muitas vezes são precisamente aqueles que trabalham silenciosamente que tornam possível a missão de todos. Mas peço-vos: nunca transformeis uma função em poder.
Nunca transformeis um cargo em estatuto. Nunca vos esqueçais de que toda a autoridade dentro da Igreja deve nascer do serviço.
E a todos aqueles que estiveram ao meu lado, quero dizer uma palavra que talvez seja a mais importante desta noite:
OBRIGADO!
Obrigado aos que permaneceram. Obrigado aos que acreditaram. Obrigado aos que trabalharam quando era mais fácil desistir. Obrigado aos que me corrigiram quando foi necessário. Obrigado aos que me deram força nos momentos em que eu próprio já não a encontrava.
Obrigado aos que lutaram comigo pela nossa Igreja.
Obrigado aos que, muitas vezes sem reconhecimento, continuaram a construir, a organizar, a servir, a rezar e a acreditar.
Se hoje posso olhar para trás com alguma serenidade, é porque sei que não caminhei sozinho: houve homens e mulheres que estiveram comigo.
Houve irmãos que deram o melhor de si. Houve pessoas que fizeram sacrifícios para que a nossa missão continuasse.
E por isso, quando este Pontificado terminar, não quero que a última palavra seja de tristeza. Quero que seja de gratidão.
Não quero que fique apenas a memória das dificuldades. Quero que permaneça também a memória daqueles que nunca abandonaram o caminho.
Não quero que se recorde apenas aquilo que não conseguimos fazer. Quero que se recorde aquilo que, juntos, conseguimos construir.
Meus irmãos, chega agora o momento em que devo falar com a autoridade própria daquele que recebeu o ministério petrino e, ao mesmo tempo, com a humildade daquele que sabe que nenhum homem é indispensável à Igreja.
A Igreja não pertence ao Papa, muito menos a mim, Agnelo. A Igreja pertence a Cristo.
E nenhum Pontífice deve acreditar que a sua permanência é mais importante do que a continuidade da missão.
Por isso, depois de ter ponderado diante de Deus, perante a minha consciência e diante da responsabilidade que me foi confiada, compreendi que chegou o momento de entregar este ministério.
Não o faço contra a Igreja. Faço-o pela Igreja.
Não o faço porque deixei de amar esta missão. Faço-o precisamente porque a amo suficientemente para reconhecer que outro poderá servi-la melhor neste momento.
Não abandono a Igreja!
Continuarei a pertencer-lhe. Continuarei a servi-la. Continuarei a rezar por ela. Continuarei a caminhar com ela.
Mas deixarei de ocupar a Cátedra de Pedro.
E quando terminar o meu ministério, não procurarei um novo título de glória. Regressarei à condição de servo. Regressarei à condição de irmão.
E, uma vez consumado o Pontificado, permanecerei entre os meus irmãos Cardeais, assumindo novamente a condição de Cardeal Eleitor, enquanto me for permitido pela ordem e pelas normas da Igreja.
Peço-vos, portanto, que não choreis esta decisão como se fosse uma derrota.
Recebei-a como um ato de responsabilidade. Recebei-a como um ato de liberdade. Recebei-a como um ato de amor à Igreja.
Que aquele que vier depois de mim encontre uma Igreja disposta a recomeçar.
Que encontre homens e mulheres dispostos a servir. Que encontre uma Cúria renovada no espírito de missão. Que encontre sacerdotes presentes. Que encontre bispos disponíveis. Que encontre cardeais unidos; E, acima de tudo, que encontre um Povo de Deus que ainda acredita.
Porque enquanto houver alguém disposto a acreditar, enquanto houver alguém disposto a rezar, enquanto houver alguém disposto a servir, a Igreja continuará viva.
E eu parto deste lugar sabendo que a minha missão não foi perfeita.
Cometi erros, e a esses, peço que me perdoem.
Agi diversas vezes como um ditador e como um devorador, onde não o deveria ter feito.
Tomei decisões que poderiam ter sido melhores.
Houve momentos em que falhei e houve momentos em que não consegui estar presente como gostaria.
Mas fiz aquilo que consegui com as forças que possuía.
E agora, humildemente, reconheço que essas forças já não são as mesmas.
Por isso, entrego...
Entrego o cargo. Entrego a responsabilidade. Entrego a Cátedra. E entrego o futuro da Igreja às mãos de Deus.
Entrego o cargo. Entrego a responsabilidade. Entrego a Cátedra. E entrego o futuro da Igreja às mãos de Deus.
Que o Espírito Santo acompanhe aquele que vier depois de mim. Que São Pedro interceda pelo seu sucessor. Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, o cubra com o seu manto.
E que Cristo, Bom Pastor, conduza sempre a sua Igreja.
E agora, perante vós, perante a Igreja e diante de Deus, faço a minha declaração solene, que, uma vez depois de ter examinado profundamente a minha consciência e reconhecendo as minhas atuais limitações, a fadiga acumulada, a minha indisponibilidade e as circunstâncias que dificultam o pleno exercício do ministério que me foi confiado, declaro livremente a minha renúncia ao ministério petrino.
Declaro, portanto, que renuncio ao Pontificado e ao exercício do ofício de Bispo de Roma, renúncia esta que produzirá os seus plenos efeitos no dia 13 de setembro, às 20h00.
A partir desse momento, ficará vacante a Sé de Pedro.
A partir da consumação desta renúncia, deixarei de exercer o ministério de Romano Pontífice e retomarei, segundo as disposições da Igreja, a condição de Cardeal Eleitor, permanecendo unido ao Colégio Cardinalício e à Igreja que servi.
Assim o declaro. Assim o estabeleço. Assim o entrego à Igreja.
Que Deus me perdoe aquilo em que falhei. Que Deus abençoe aqueles que permaneceram comigo. Que Deus fortaleça aqueles que continuarão a servir.
E que Deus conceda àquele que vier depois de mim a sabedoria, a coragem e a humildade necessárias para conduzir esta Igreja.
A minha última palavra como Pontífice não será uma palavra de despedida.
Será uma palavra de confiança: Continuai.
Continuai a servir. Continuai a lutar. Continuai a acreditar. Continuai a amar a Igreja.
Porque agora é tempo de outro homem tomar sobre os seus ombros a cruz de Pedro.
E que ele nunca se esqueça de que, antes de ser Papa, deverá ser servo.
Que Deus abençoe a Santa Igreja. Que Deus abençoe o sucessor de Pedro. Que Deus abençoe cada um de vós.
E que São Pedro, sobre cuja fé Cristo edificou a sua Igreja, interceda por todos nós.
Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 10 de setembro do ano do Senhor de dois mil e vinte e seis, primeiro do meu pontificado.
+ PAULUS PP. VII
Servus Servorum Dei
Servus Servorum Dei
