Carta Apostólica «Non ego, sed Deus», sobre a Missão Pastoral no Habblet Hotel

CARTA APOSTÓLICA
NON EGO, SED DEUS
SOBRE A MISSÃO PASTORAL NO HABBLET HOTEL
DO SUMO PONTÍFICE
INOCÊNCIO,
SERVUS SERVORUM DEI

A todos aqueles que estas letras lerem,
saudação, paz e bênção apostólica.

1. Non ego, sed Deus — Não eu, mas Deus. É sob esta expressão, tão simples quanto profundamente exigente, que desejo dirigir-me a toda a Igreja Católica presente no Habblet Hotel, por ocasião da Solenidade de São Carlo Acutis, que veneramos como Padroeiro do nosso apostolado católico virtual.

2. Não se trata apenas de uma frase que embeleza um documento, nem de um lema destinado a permanecer escrito nas páginas de uma carta. Trata-se de uma verdadeira orientação espiritual, de um exame de consciência e de um princípio que deve acompanhar cada palavra que pronunciamos, cada decisão que tomamos e cada serviço que prestamos em nome da Igreja.

3. Não eu, mas Deus. Não a nossa vontade, mas a vontade do Senhor. Não a procura do reconhecimento pessoal, mas o desejo de que Cristo seja conhecido, amado e seguido. Não a exaltação de nomes, cargos ou posições, mas a humilde disponibilidade de quem compreende que o ministério cristão não é um instrumento de poder, mas um serviço prestado ao Povo de Deus.

4. É com este espírito que vos escrevo, consciente das dificuldades que atravessamos, das feridas que permanecem abertas e das divisões que têm colocado à prova a nossa comunhão. Escrevo-vos, sobretudo, porque acredito que a missão que nos foi confiada é maior do que qualquer conflito humano e porque nenhuma crise nos dispensa de regressar ao essencial: Jesus Cristo e o seu Evangelho.

I. 
UMA MISSÃO QUE NASCEU PARA EVANGELIZAR

5. Desde outubro de 2010, quando teve início este apostolado católico no universo virtual, a nossa presença nas plataformas digitais tem procurado abrir caminhos para o encontro com Deus. Ao longo destes dezasseis anos, o ambiente digital tornou-se o espaço onde muitos descobriram, ou redescobriram, a linguagem da fé, a riqueza da oração, a beleza da liturgia e o sentido de pertencer a uma comunidade cristã.

6. O que fazemos não pode, por isso, ser reduzido a um simples jogo, a uma sucessão de cerimónias virtuais ou à representação de estruturas eclesiásticas. Embora a nossa atividade decorra num ambiente virtual, a intenção pastoral que a orienta deve ser tratada com seriedade, responsabilidade e consciência cristã.

7. Por detrás de cada avatar existe uma pessoa. Por detrás de cada nome existe uma história. Por detrás de cada mensagem pode existir alguém que procura uma palavra de esperança, um lugar onde seja acolhido ou uma razão para voltar a olhar para Deus.

8. É particularmente importante reconhecermos esta realidade quando nos dirigimos a crianças, adolescentes e jovens. As plataformas digitais fazem parte do mundo em que crescem, comunicam e constroem relações. Se desejamos que conheçam Jesus Cristo, não podemos ignorar os lugares onde vivem grande parte das suas experiências quotidianas.

9. A Igreja é chamada a ir ao encontro das pessoas, sem esperar que todas cheguem primeiro às suas portas. Foi assim que Cristo caminhou pelas estradas, entrou nas casas, sentou-se à mesa dos pecadores e se aproximou daqueles que a sociedade tantas vezes deixava para trás.

10. Também nós somos chamados a caminhar ao encontro dos outros, servindo-nos dos meios disponíveis para anunciar o Evangelho com criatividade, prudência e fidelidade.

11. A nossa missão não consiste em conquistar pessoas para uma instituição, mas em ajudá-las a descobrir o amor de Deus. Não consiste em multiplicar títulos, mas em multiplicar gestos de caridade. Não consiste em impressionar pelo aparato das nossas celebrações, mas em permitir que, através delas, alguém encontre motivos para rezar, perdoar, amar e viver com maior sentido de responsabilidade.

12. Que jamais nos esqueçamos disto: o êxito do nosso apostolado não se mede apenas pela dimensão da nossa comunidade, mas pela qualidade do testemunho cristão que somos capazes de oferecer.

II. 
SÃO CARLO ACUTIS: 
UM MODELO PARA O APOSTOLADO DIGITAL

14. A celebração de São Carlo Acutis convida-nos a contemplar um jovem que soube viver a sua fé no mundo do seu tempo, utilizando também os recursos tecnológicos ao seu alcance para dar testemunho da sua devoção a Jesus Cristo.

15. A sua vida recorda-nos que a santidade não está reservada a uma época, a uma idade ou a um determinado ambiente. Deus continua a chamar homens e mulheres, crianças e jovens, em todas as circunstâncias da história. Também o mundo digital pode tornar-se um lugar de testemunho, de serviço e de anúncio do Evangelho, quando é utilizado com reta intenção e responsabilidade.

16. São Carlo Acutis não nos convida a colocar a tecnologia no centro da nossa existência. Convida-nos, antes, a orientar a nossa vida para Cristo e a colocar os talentos que recebemos ao serviço do bem.

17. Por isso, a sua figura deve constituir para nós muito mais do que uma referência simbólica. Deve ser um apelo permanente à coerência entre aquilo que anunciamos e aquilo que vivemos.

18. Podemos organizar celebrações magníficas, redigir documentos solenes e construir estruturas que reproduzam a aparência de uma Igreja. Contudo, se nos faltar a caridade, se desprezarmos a verdade, se fizermos da nossa posição um motivo de orgulho ou se tratarmos o nosso irmão como um inimigo a abater, teremos perdido de vista aquilo que verdadeiramente importa.

19. São Carlo Acutis é associado à seguinte reflexão: «A tristeza é o olhar voltado para si próprio, a alegria é o olhar voltado para Deus». Esta expressão, que nos convida à conversão interior, ganha particular importância perante as dificuldades que hoje enfrentamos.

20. Quando o nosso olhar permanece fixo nas ofensas recebidas, nas disputas e no reconhecimento que julgamos merecer, corremos o risco de transformar a missão num espelho das nossas próprias inquietações. Quando, pelo contrário, voltamos os olhos para Deus, encontramos a liberdade necessária para continuar a servir sem fazer do ressentimento o centro da nossa vida.

21. É, pois, esta a disposição espiritual que desejo para o nosso apostolado: menos preocupação com a exaltação pessoal e mais dedicação à missão; menos palavras destinadas a ferir e mais palavras capazes de edificar; menos competição e mais disponibilidade para servir.

22. Não eu, mas Deus. Que Cristo cresça em nós e que o nosso orgulho diminua diante da grandeza da sua missão.

III. 
O DEVER MINISTERIAL: 
TOCAR VIDAS E APROXIMAR OS CORAÇÕES DE DEUS

23. Aqueles que assumem responsabilidades ministeriais na Igreja não recebem apenas uma função ou um título. Assumem um dever de consciência perante Deus e perante as pessoas a quem se comprometem a servir.

24. Ser sacerdote, bispo ou responsável pastoral, mesmo no contexto específico do nosso apostolado virtual, deve significar disponibilidade, compromisso, disciplina e caridade. Não podemos reclamar a dignidade de um ministério e, simultaneamente, ignorar as responsabilidades que lhe estão associadas.

25. O ministério exige presença. Exige preparação. Exige respeito pelos compromissos assumidos. Exige que sejamos capazes de trabalhar em conjunto, de reconhecer os nossos erros e de compreender que a missão não depende exclusivamente da vontade de uma pessoa, mas da cooperação de todos aqueles que se dispõem a servir.

26. A comunidade não deve ser tratada como um palco para a afirmação individual, nem os fiéis como espectadores de disputas entre aqueles que deveriam dar exemplo de fraternidade.

27. Aos ministros da Igreja, recordo: o vosso primeiro compromisso não é convosco próprios, nem com a preservação da vossa imagem, mas com Cristo e com a missão que professais abraçar.

28. Àqueles que trabalham na catequese, na organização litúrgica, na oração, na formação e no acompanhamento dos mais jovens, agradeço a dedicação e encorajo-vos a prosseguir com responsabilidade. O trabalho discreto de quem prepara uma celebração, acolhe um recém-chegado ou acompanha fraternalmente alguém que atravessa um momento difícil pode produzir frutos que nunca chegaremos a conhecer por inteiro.

29. Tenhamos, porém, consciência de que a evangelização digital exige especial prudência. A aproximação de crianças, adolescentes e jovens a Deus deve realizar-se num ambiente seguro, respeitador da sua dignidade, da sua privacidade e dos limites próprios de cada idade. A formação cristã nunca deve servir de pretexto para exercer controlo indevido sobre consciências, exigir informações pessoais desnecessárias ou criar dependências emocionais.

30. A nossa missão só será verdadeiramente pastoral se soubermos unir o anúncio da fé ao respeito integral pela pessoa humana.

31. Não queremos apenas que os jovens conheçam os nomes das orações ou os momentos de uma celebração. Queremos que descubram o valor do perdão, a responsabilidade perante o próximo, a importância da verdade e a beleza de uma vida orientada pelo amor.

32. Não queremos que permaneçam connosco por medo, pressão ou obrigação. Queremos que encontrem razões para se aproximarem livremente de Deus, compreendendo que a fé é uma resposta pessoal ao amor que Ele primeiro nos oferece.

33. É para isso que existe o nosso apostolado. É para isso que somos chamados. E é perante esta missão que devemos avaliar o nosso compromisso.

IV. 
PERANTE A DIVISÃO, RESPONDER COM AMOR

33. Não podemos escrever sobre a missão da Igreja sem reconhecer a divisão que atualmente atravessamos no Habblet Hotel.

34. Os acontecimentos recentes provocaram sofrimento, inquietação e um profundo sentimento de deceção entre aqueles que, durante anos, procuraram construir uma comunidade de fé. As divergências que se agravaram e a rutura que delas resultou colocam-nos perante uma pergunta incontornável: como devemos proceder quando aqueles com quem partilhávamos uma missão deixam de caminhar connosco?

35. A primeira tentação poderá ser responder à hostilidade com hostilidade, à provocação com outra provocação e à ofensa com uma ofensa ainda maior. Poderemos sentir a necessidade de defender publicamente a nossa posição, de responder a cada acusação e de demonstrar, perante todos, que não somos nós os responsáveis pelo sofrimento que experimentamos.

36. Compreendo a dificuldade deste momento. Compreendo que existam feridas e que a injustiça, quando sentida, desperte em nós o desejo de responder. Todavia, não podemos permitir que a dor determine o modo como vivemos a nossa fé.

37. Jesus Cristo não nos deixou um mandamento ambíguo. Disse aos seus discípulos: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 15, 12).

38. Este mandamento não é uma recomendação facultativa, reservada aos momentos em que tudo corre bem. É uma exigência que se torna particularmente importante quando somos confrontados com a incompreensão, a oposição e a dificuldade de dialogar.

39. O amor cristão não significa aceitar todas as atitudes como legítimas, silenciar a verdade ou abandonar a responsabilidade de corrigir aquilo que consideramos errado. Significa, antes, que a defesa da verdade nunca deve ser separada da dignidade da pessoa a quem nos dirigimos.

40. Podemos discordar sem humilhar. Podemos denunciar comportamentos sem destruir reputações. Podemos estabelecer limites sem alimentar o ódio. Podemos defender a continuidade do nosso apostolado sem transformar aqueles que dele se afastaram em objetos de desprezo.

41. Por isso, exorto todos os membros desta Igreja a não responderem às provocações com ataques pessoais, a não alimentarem discussões destinadas unicamente a aprofundar a divisão e a não utilizarem o nome de Deus como justificação para a hostilidade.

42. A nossa resposta deve ser firme naquilo em que acreditamos e serena na maneira como o defendemos.

43. Não confundamos firmeza com agressividade, nem fidelidade com incapacidade de escutar. A Igreja precisa de pessoas que saibam permanecer de pé nas horas difíceis sem perder a capacidade de reconhecer no outro um ser humano digno de respeito.

V. 
A UNIDADE DA IGREJA E AS ARTIMANHAS DA DIVISÃO

44. A Sagrada Escritura adverte-nos para a realidade do mal e para a necessidade de permanecermos vigilantes. O próprio Senhor nos ensinou a pedir ao Pai que nos livre do mal, e São Paulo recorda aos cristãos que a nossa luta exige discernimento espiritual.

45. O demónio é apresentado na tradição cristã como pai da mentira e adversário da comunhão. A mentira, a inveja, o orgulho e a divisão podem tornar-se instrumentos de destruição quando encontram espaço nos nossos corações.

46. Contudo, devemos ser prudentes: não nos compete declarar que determinada pessoa serve o demónio, nem atribuir com certeza sobrenatural as intenções dos nossos adversários. A vigilância cristã começa, antes de mais, pela capacidade de examinar a nossa própria consciência.

47. O mal pode insinuar-se através daquilo que dizemos, das decisões que tomamos e da maneira como tratamos os nossos irmãos. E nenhum de nós está dispensado de reconhecer essa possibilidade.

48. A divisão que hoje afeta o nosso apostolado constitui, por isso, uma provação que exige oração, discernimento e responsabilidade. Não devemos permitir que as suspeitas, os ressentimentos e as acusações se tornem os fundamentos da nossa identidade comunitária.

49. Se acreditamos que Cristo nos chamou a esta missão, devemos demonstrá-lo pela forma como a preservamos. Se acreditamos que o Evangelho é a nossa referência, devemos permitir que seja ele a orientar as nossas reações. Se afirmamos que a Igreja é lugar de comunhão, devemos esforçar-nos por não reproduzir, dentro dela, os mesmos comportamentos que lamentamos encontrar fora dela.

50. Recordemos as palavras de Jesus dirigidas a Pedro: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela» (Mt 16, 18).

51. Esta promessa não deve ser utilizada como instrumento de intimidação contra quem discorda de nós. É, antes, uma fonte de esperança que nos recorda que a fidelidade a Cristo não depende da ausência de crises.

52. A Igreja atravessou, ao longo da sua história, momentos de provação, incompreensão e divisão. Também nós devemos aprender que a perseverança não se mede pela intensidade das nossas declarações, mas pela capacidade de continuar a servir com fidelidade, mesmo quando o caminho se torna difícil.

53. Não permitamos que a divisão defina o nosso apostolado. Que a nossa identidade permaneça fundada em Cristo, e não no conflito com aqueles que seguiram outro caminho.

VI. 
O DIÁLOGO ECUMÉNICO:
 UMA OPORTUNIDADE QUE NÃO DEVEMOS DESPREZAR

54. Há poucos dias, dirigi uma carta de caráter ecuménico às comunidades católicas do Habbo Hotel e do Habblet Hotel, procurando abrir um caminho de diálogo, entendimento e reconciliação entre irmãos que, apesar das suas divergências, partilham referências cristãs e uma linguagem de fé.

55. A iniciativa nasceu da convicção de que as feridas antigas não devem ser perpetuadas indefinidamente e de que o diálogo constitui uma possibilidade concreta de superar antagonismos que, por vezes, se prolongam muito para além das circunstâncias que lhes deram origem.

56. Segundo a resposta que recebemos, a comunidade do Habbo Hotel e o seu pontífice acolheram favoravelmente a proposta, manifestando disponibilidade para um diálogo fraterno, pacífico e respeitador das diferenças.

57. Em contrapartida, a proposta não recebeu o acolhimento que desejávamos por parte de membros da comunidade conhecida como ICAR Let, no Habblet Hotel, tendo sido relatadas reações de rejeição e manifestações de escárnio e hostilidade nas redes sociais.

58. Lamento profundamente que uma iniciativa orientada para a paz não tenha encontrado, neste caso, a abertura que esperávamos. Não o digo para alimentar ressentimentos, nem para transformar este documento numa condenação de pessoas ou comunidades. Digo-o porque a realidade deve poder ser reconhecida com serenidade, para que dela possamos retirar ensinamentos.

59. O diálogo não obriga ninguém a renunciar às suas convicções. A reconciliação não exige que se apaguem as diferenças, nem que se ignorem os acontecimentos do passado. Exige, porém, disponibilidade para escutar, respeito pela dignidade de quem pensa de maneira diferente e vontade sincera de procurar caminhos que impeçam a perpetuação do conflito.

60. Quando alguém nos estende a mão, temos o dever cristão de ponderar essa proposta sem preconceitos e sem permitir que o orgulho decida antecipadamente a nossa resposta.

61. A recusa de uma iniciativa de paz, por si só, não nos autoriza a julgar a fé, a consciência ou as intenções de quem a recusa. Mas obriga-nos a refletir sobre a responsabilidade que todos temos na construção de relações mais fraternas.

62. Perguntemo-nos, pois, com humildade: estamos verdadeiramente disponíveis para a paz, mesmo quando ela exige que escutemos quem nos magoou? Estamos preparados para dialogar sem procurar impor a nossa superioridade? Conseguimos distinguir a defesa das nossas convicções do desejo de vencer uma disputa?

Estas perguntas devem ser dirigidas, em primeiro lugar, a nós próprios.

63. Renovo, por isso, a disponibilidade desta Igreja para o diálogo fraterno e para iniciativas de reconciliação que se realizem com respeito mútuo, seriedade e boa-fé. Não fechamos a porta ao entendimento. Não fazemos da divergência uma condenação definitiva. Não consideramos que a paz seja uma fraqueza.

64. A paz é um trabalho exigente, e a reconciliação é um caminho que requer coragem. Continuaremos disponíveis para ambos, sem renunciar à nossa identidade e sem abdicar da dignidade que devemos uns aos outros.

VII. 
CONFIAR A DEUS AQUELES QUE NOS PERSEGUEM

65. O Senhor ensinou-nos a amar os nossos inimigos e a rezar por aqueles que nos perseguem (cf. Mt 5, 44). Esta palavra evangélica é particularmente exigente quando sentimos que fomos injustiçados ou quando nos parece que o nosso trabalho está a ser deliberadamente desvalorizado.

66. Confiar os nossos adversários às mãos de Deus não significa desejar que sejam castigados, nem esperar que sofram as consequências das suas escolhas. Significa reconhecer que não somos os juízes definitivos das consciências e que não nos cabe substituir a justiça pela vingança.

67. Deus conhece a verdade das nossas intenções, as nossas limitações e os erros que cometemos. Conhece igualmente as intenções e as responsabilidades de cada pessoa. A Ele entregamos aquilo que não conseguimos resolver, pedindo-Lhe a graça de agir com sabedoria e de não permitir que o ressentimento nos afaste do Evangelho.

68. Aqueles que nos criticam não devem encontrar em nós uma comunidade dominada pela amargura. Aqueles que nos abandonam não devem ser alvo de perseguição. Aqueles que discordam das nossas decisões devem poder fazê-lo sem que lhes seja negado o respeito devido a qualquer pessoa.

69. E se, em algum momento, também nós tivermos contribuído para a divisão por palavras precipitadas, decisões injustas ou atitudes pouco fraternas, tenhamos a humildade de o reconhecer e a coragem de pedir perdão.

70. A responsabilidade cristã não consiste apenas em identificar os erros alheios. Consiste, sobretudo, em permitir que Deus ilumine os nossos próprios erros.

71. Não somos chamados a controlar a consciência de ninguém. Somos chamados a testemunhar a verdade com caridade e a permanecer fiéis ao bem, mesmo quando não recebemos a resposta que desejávamos.

72. Que o Senhor nos conceda a serenidade de quem confia, a paciência de quem sabe esperar e a humildade de quem compreende que a última palavra pertence sempre a Deus.

VIII. 
NÃO EU, MAS DEUS: 
UMA CONVERSÃO PERMANENTE

73. A expressão que dá título a esta Carta Apostólica deve tornar-se um programa de vida para todos os que participam neste apostolado.

Non ego, sed Deus.

Não eu, quando procuro reconhecimento acima do serviço.

Não eu, quando coloco a minha posição acima da comunhão.

Não eu, quando prefiro alimentar uma disputa em vez de procurar uma solução.

Não eu, quando utilizo a fé para justificar a hostilidade.

Não eu, quando exijo dos outros uma fidelidade que não estou disposto a demonstrar nas minhas próprias atitudes.

Mas Deus, quando acolho aquele que chega.

Mas Deus, quando cumpro os compromissos que assumi.

Mas Deus, quando anuncio o Evangelho sem procurar dominar a consciência dos outros.

Mas Deus, quando respondo com serenidade à provocação.

Mas Deus, quando tenho a coragem de reconhecer os meus erros.

Mas Deus, quando continuo a trabalhar pelo bem, mesmo sem aplausos ou reconhecimento.

74. Esta conversão não se realiza de uma vez por todas. Exige um esforço quotidiano, uma oração perseverante e uma disposição constante para rever as nossas atitudes à luz do Evangelho.

75. A Igreja não precisa de ministros que se considerem irrepreensíveis. Precisa de servidores conscientes das suas limitações, dispostos a aprender, a corrigir-se e a colocar os seus talentos ao serviço de uma missão que os ultrapassa.

76. Não precisamos de provar a nossa grandeza. Precisamos de demonstrar a grandeza daquilo em que acreditamos.

77. Se Cristo estiver verdadeiramente no centro da nossa vida, a nossa presença digital não será apenas uma representação de estruturas religiosas. Será uma oportunidade de transmitir esperança, de promover a fraternidade e de ajudar outros a descobrir o amor de Deus.

78. E se o nosso trabalho conseguir aproximar uma única pessoa de uma vida mais consciente, mais solidária e mais aberta ao Evangelho, já teremos uma razão para agradecer ao Senhor pelo bem que nos permitiu realizar.

IX. 
AO CLERO E AOS FIÉIS

79. Aos sacerdotes e aos ministros desta Igreja, peço que renovem a consciência do compromisso que assumiram. Não permitais que a rotina, a disputa ou o desânimo apaguem a alegria do serviço. Sede responsáveis nas tarefas que vos são confiadas, respeitai os vossos compromissos e procurai ser instrumentos de comunhão.

80. Aos responsáveis pelas celebrações, pela catequese, pela formação e pela organização comunitária, recordo que a preparação é também uma forma de caridade. A dedicação que colocais no trabalho demonstra o respeito que tendes por aqueles a quem servis.

81. Aos jovens que participam neste apostolado, digo-vos: não tenhais receio de procurar Deus no mundo em que viveis. A tecnologia pode ser utilizada para tantas finalidades, mas também pode tornar-se uma oportunidade de oração, de aprendizagem, de partilha e de crescimento espiritual. Não permitais, contudo, que o ambiente virtual substitua a vossa vida pessoal, as vossas relações familiares, a comunidade humana em que estais inseridos ou a participação responsável na vida da Igreja.

82. Aos que se sentem cansados ou desiludidos, peço que não confundam a dificuldade do momento com o fim da missão. Há ocasiões em que precisamos de parar, discernir, reorganizar o trabalho e recuperar forças. Essa pausa não é necessariamente uma derrota. Pode ser o princípio de uma renovação mais profunda.

83. E a todos os fiéis, peço que façam da caridade o critério das vossas palavras e das vossas ações. Não sejais instrumentos de uma divisão que não ajuda ninguém a aproximar-se de Deus. Sede, antes, construtores de pontes, promotores da verdade e testemunhas da esperança cristã.

84. Que cada um de nós possa perguntar diariamente: aquilo que faço aproxima alguém de Cristo ou afasta-o? Aquilo que digo promove a verdade ou aumenta a confusão? A maneira como trato o meu irmão manifesta o Evangelho que anuncio?

85. As respostas a estas perguntas poderão revelar-nos mais sobre a autenticidade da nossa missão do que qualquer título ou reconhecimento público.

X. 
A ESPERANÇA QUE PERMANECE

86. Ao contemplarmos os dezasseis anos de história deste apostolado, não podemos deixar de agradecer a Deus por todos aqueles que, ao longo do tempo, dedicaram parte da sua vida a esta missão.

87. Recordamos os que serviram com generosidade, os que prepararam celebrações, os que ensinaram, os que rezaram, os que acolheram e os que contribuíram para que esta presença católica permanecesse viva no ambiente digital.

88. Nem tudo terá sido perfeito. Nem todas as decisões terão sido as melhores. Nem todas as relações terão permanecido intactas. Mas a consciência das nossas limitações não deve impedir-nos de reconhecer o bem realizado nem de procurar fazer melhor no futuro.

89. A história desta Igreja não pode ficar prisioneira dos seus conflitos. Deve também ser uma história de aprendizagem, de conversão e de esperança.

90. A divisão que hoje enfrentamos é real e não deve ser minimizada. Todavia, não permitamos que se transforme no único horizonte da nossa existência comunitária.

91. Continuemos a trabalhar, com prudência e responsabilidade, naquilo que dá sentido à nossa presença: a oração, a formação, o anúncio do Evangelho, o acolhimento fraterno e a aproximação das pessoas a Deus.

92. Não sabemos quais serão os desafios dos próximos anos. Sabemos, porém, que a fidelidade ao Evangelho não depende das circunstâncias serem favoráveis.

93. É por isso que volto a recordar a promessa do Senhor: as portas do inferno não prevalecerão contra a sua Igreja. Esta esperança não nos dispensa do trabalho; dá-nos força para o realizar. Não nos autoriza à arrogância; chama-nos à confiança. Não nos promete uma história sem dificuldades; assegura-nos que a missão de Cristo é maior do que as nossas fragilidades.

94. Que São Carlo Acutis interceda por todos aqueles que utilizam os meios digitais para anunciar o Evangelho. Que nos ensine a orientar os nossos talentos para Deus e a compreender que a verdadeira alegria nasce de uma vida que não se fecha sobre si própria.

95. Que a Virgem Santíssima, Mãe da Igreja, nos acompanhe nas horas de provação e nos ensine a permanecer junto de Cristo, mesmo quando não compreendemos plenamente os caminhos que temos diante de nós.

96. E que o Espírito Santo renove em nós a coragem de recomeçar, a sabedoria de discernir e a caridade de permanecer unidos naquilo que verdadeiramente importa.

CONCLUSÃO

Irmãos e irmãs em Cristo:

97. Não permitamos que a divisão nos roube a capacidade de amar. Não permitamos que a provocação nos retire a serenidade. Não permitamos que o orgulho nos impeça de pedir perdão ou de estender a mão. E não permitamos que as dificuldades do presente nos façam esquecer a razão pela qual, um dia, decidimos servir a Igreja.

98. O nosso apostolado não existe para alimentar rivalidades, nem para perpetuar disputas entre comunidades. Existe para anunciar Jesus Cristo, para dar testemunho do seu Evangelho e para abrir, no ambiente digital, caminhos que conduzam as pessoas ao encontro com Deus.

99. Sejamos firmes na fé, responsáveis no ministério e generosos na caridade. Defendamos aquilo em que acreditamos sem deixarmos de respeitar aqueles que pensam de maneira diferente. Continuemos disponíveis para o diálogo, sem confundirmos a reconciliação com a renúncia à verdade. E, acima de tudo, procuremos que cada gesto nosso seja uma oportunidade para manifestar o amor de Cristo.

100. Aos que caminham connosco, peço perseverança. Aos que se afastaram, não fechamos definitivamente a porta. Aos que discordam de nós, oferecemos respeito. Aos que nos dirigem palavras duras, procuraremos responder com serenidade. E por todos, sem exceção, queremos continuar a rezar.

101. Porque a Igreja não é verdadeiramente servidora de Cristo quando se limita a falar de amor: é servidora de Cristo quando se dispõe a amar, sobretudo nos momentos em que esse amor mais custa.

102. Que São Carlo Acutis nos recorde sempre que a nossa vida deve estar orientada para Deus. Que a sua intercessão fortaleça o nosso apostolado e que, no meio das dificuldades, nunca percamos de vista a missão que nos foi confiada.

Non ego, sed Deus. Não eu, mas Deus.

103. Que esta seja a nossa disposição, o nosso exame de consciência e a nossa esperança. Que não procuremos construir uma obra para a nossa própria glória, mas um serviço que, apesar das nossas imperfeições, procure conduzir os corações ao Senhor.

104. E que, no final de todo este caminho, não sejam as nossas disputas a falar mais alto do que o nosso testemunho, mas a caridade com que procurámos servir.

105. A Deus confiamos o nosso presente, o nosso futuro e todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, fizeram parte desta história.

A Ele pertencem a missão, a Igreja e a glória.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 13 de outubro do ano do Senhor de 2026, primeiro do nosso pontificado, Solenidade de São Carlo Acutis, Padroeiro da Santa Igreja Romana do Habblet Hotel.
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