FREI LEOPOLDO JORGE CARDEAL SCHERER, C.P.
POR MERCÊ DE DEUS E DESTA SÉ APOSTÓLICA,
CARDEAL-BISPO DE PORTO-SANTA RUFINA E ÓSTIA,
DECANO DO COLÉGIO DOS CARDEAIS
CARTA AOS CARDEAIS,
POR OCASIÃO DA ELEIÇÃO AO DECANATO.
Eminentíssimos senhores Cardeais Bispos, Presbíteros e Diáconos e a todos irmãos e irmãs que lerem esta minha carta; saúde, paz, esperança e bençãos do Senhor Ressuscitado.
“Dominus illuminatio mea et salus mea; quem timebo?” (Sl 27,1) — O Senhor é minha luz e salvação; de quem terei medo?
Com o coração elevado ao Senhor, dirijo-me a todos vós, irmãos e irmãs na fé, para partilhar convosco um momento de profunda relevância alegria, revestido de grande humildade e temor, me confiado pelo Senhor.
No decurso desta noite, foi-me confiada, pela graça de Deus e pelo discernimento dos Eminentíssimos senhores Cardeais-Bispos, a exigente e árdua missão de servir como Decano do Colégio Cardinalício, sucedendo àquele que, com sabedoria, prudência e espírito de comunhão, guiou-nos até agora: Sua Eminência, o Cardeal Fernando Bórgia, a quem manifesto minha gratidão por tudo até hoje.
Ao comunicar-vos este novo encargo, não o faço com vanglória humana ou pretensões pessoais — pois bem sabemos, como disse São Bernardo de Claraval, que “todo cargo é uma responsabilidade e todo título é uma cruz” — mas movido unicamente pelo zelo pela casa de Deus (cf. Jo 2,17) e por amor à Igreja.
O gesto de renúncia do meu predecessor foi expressão de discernimento maduro, de serviço consumado e de profunda humildade. E como o fez o ex-Cardeal Morelli, um grande exemplo, hoje agradeço ao gesto do Cardeal Bórgia. Como ensina São João Crisóstomo: “O fim da autoridade não é o domínio, mas o serviço.”
O Decano do Colégio Cardinalício, embora revestido de particular dignidade entre os Cardeais da Santa Igreja, não é senão servo dos servos de Deus entre seus irmãos. A função do Decano, em sua essência, é promover a comunhão, custodiar a unidade, salvaguardar a tradição e, sobretudo, ser artífice de uma colegialidade real e operante — não meramente jurídica, mas profundamente unitária.
Serei, com o auxílio de Deus, instrumento de unidade, vigilância pastoral e obediência à Sé Apostólica, fonte da catolicidade. O Papa, Caput Ecclesiae Visibile, é o vínculo visível da unidade de fé e caridade; a nós cabe, com fidelidade, cooperar com o seu ministério, oferecendo-lhe oração, conselho e lealdade, como é devido ao Sucessor de Pedro.
Com São Paulo, proclamo: “Não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; quanto a nós, somos vossos servos por causa de Jesus” (2Cor 4,5).
Dirijo-me em particular a vós, meus amados irmãos Cardeais: vós que representais as Igrejas espalhadas pelos confins da terra; vós que conheceis as alegrias e dores do Povo de Deus; vós que, na vossa diversidade de culturas e experiências, trazeis a catolicidade viva ao coração da Igreja, prometo-vos proximidade, escuta sincera, discernimento compartilhado e oração constante. Que nunca se instale entre nós o espírito de divisão ou competição, mas o espírito de fraternidade evangélica. “Que haja entre vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Fl 2,5).
A colegialidade é um dom e uma responsabilidade. Ela não se reduz a assembleias ou deliberações, mas exige a abertura do coração, a escuta do Espírito Santo e o sacrifício do próprio querer em prol do bem comum da Igreja.
Também me dirijo aos meus irmãos Bispos: colaboradores do Sucessor de Pedro, autênticos mestres da fé, pastores do rebanho. Unidos na collegialis affectus, caminhamos juntos nesta hora da história, conscientes de que somos chamados a guiar o Povo de Deus com mansidão e fortaleza, como o Bom Pastor.
Aos meus queridos irmãos presbíteros e diáconos, peço que permaneçam fiéis às promessas da vossa ordenação, ardorosos na caridade pastoral, generosos no serviço dos Sacramentos, fiéis ao Magistério e próximos dos pobres e sofredores.
Aos religiosos e religiosas, memória viva do seguimento radical de Cristo, agradeço pelo testemunho da vida consagrada, sinal profético de um mundo novo.
Aos fiéis leigos, membros vivos do Corpo de Cristo, recordo que a vossa vocação é santificar o mundo a partir de dentro, com a luz do Evangelho. Como disse o amado Papa São João Paulo, II: “A Igreja não seria plenamente ela mesma sem a presença dos leigos.” e vocês são a voz viva da Igreja.
Ao Santo Padre, Sucessor do Apóstolo Pedro, manifesto a minha mais filial obediência e gratidão. Sua santidade João Paulo IX, com coração paterno e espírito profético, guia a barca de Pedro em meio às tormentas destes últimos tempos. E ecoa a frase: “Onde está Pedro, aí está a Igreja,” já dizia Santo Ambrósio. Rogo ao Senhor que o conserve, o fortaleça e o ilumine abundantemente neste ministério.
Agradeço também aos que, neste momento, elevam orações por mim. As palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus me vêm à mente: “Na oração, é o coração que fala, não os lábios. Deus não olha para as palavras, mas para o amor.” Que este amor orante nos una sempre.
Enfim, consagro este ministério à intercessão materna da Santíssima Virgem Maria, Sedes Sapientiae, Mãe da Igreja. Que Ela, que soube meditar todas as coisas no coração, nos ajude a discernir os caminhos do Senhor. Que São José, Patrono da Igreja Universal, nos proteja e guie com seu silêncio operante. Que os Santos Apóstolos Pedro e Paulo nos inspirem fidelidade e coragem. Que o Espírito Santo renove a face da terra e da Igreja.
E peço-vos humildemente: rezai por mim. Para que eu não fuja diante do lobo, mas permaneça firme na missão que me é confiada, e comigo, incluo todos os que citei anteriormente: O Corpo Místico de Cristo.
Roma, no Paço Episcopal de Palestrina, no dia 29 de maio de 2025. Primeiro do nosso Pontificado.
† LLEOPOLDIVS GIORGIVM CARD. SCHERER
Decano do Colégio dos Cardeais
