EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
DEUS CARITAS EST
DO SANTO PADRE
BONIFÁCIO
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE O
AMOR AO PRÓXIMO
PROEMIO
1. “DEUS CARITAS EST — Deus é amor” — estas palavras, breves e eternas, encerram todo o mistério da fé cristã. Elas não são apenas uma definição teológica, mas uma revelação viva, um sopro divino que sustenta o universo e dá sentido à existência humana. Antes que o homem aprendesse a falar, Deus já amava. Antes que o mundo fosse moldado, o amor já habitava o seio da Trindade.
2. O amor é, pois, o princípio e o fim de todas as coisas. Tudo o que foi criado procede do amor e a ele retorna.
O homem, imagem e semelhança do Criador, só encontra a plenitude quando ama, porque foi feito para amar. Fora do amor, tudo se torna frio, vazio e sem direção.
3. Quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós, o amor se fez visível, tocável, concreto. Cristo, ao descer da glória para partilhar da fragilidade humana, revelou que o amor verdadeiro é inseparável da humildade e do sacrifício. Amar é descer, é perder-se para que o outro viva, é fazer da própria vida uma oferenda.
4. Por isso, o amor é o coração da santidade. Não há caminho de perfeição cristã que não passe pelo amor.
O asceta que mortifica o corpo, o sábio que busca a verdade, o pastor que cuida do rebanho — todos, se não amarem, nada são.
5. No amor se cumpre toda a lei. As palavras dos profetas, as páginas do Evangelho, o sangue dos mártires — tudo converge para esta fonte. Quem ama conhece a Deus; quem não ama, por mais piedoso que pareça, ainda não penetrou o mistério do Altíssimo.
6. O amor é o reflexo do próprio Deus no coração humano. É luz que não se apaga, chama que não consome, mas purifica. Ele faz o homem transcender a si mesmo, libertando-o do peso do egoísmo e da indiferença. O amor é a escada que liga a terra ao céu.
O mandamento novo
7. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” — Eis o Mandamento Novo que o Senhor deixou aos Seus discípulos na véspera da Paixão. Não é mera recomendação, mas testamento sagrado, selo de uma aliança definitiva. No instante em que o mundo se preparava para trair o Amor, o próprio Amor confiava ao homem a sua herança eterna.
8. O “como Eu vos amei” é o coração desta ordem divina. Jesus não pede que amemos segundo o nosso limite humano, mas segundo o Seu exemplo, que é infinito. Ele amou até o fim, até a cruz, até o silêncio do túmulo, até a vitória sobre a morte. Amar como Cristo é permitir que o próprio Cristo ame em nós.
9. O amor de Cristo não é feito de palavras suaves ou promessas frágeis. É amor que se inclina, que lava os pés, que perdoa quem o fere.
É amor que não se escandaliza da miséria humana, mas a abraça. Ele não se contenta com o bem dos que Lhe são caros, mas busca o bem de todos, até dos que O rejeitam.
10. O discípulo verdadeiro é aquele que aprende o idioma da caridade no silêncio do coração. Não basta repetir o nome de Cristo; é preciso reproduzir os Seus gestos. O Evangelho não se prega com teorias, mas com mãos estendidas, com olhos que veem o sofredor, com uma presença que consola e cura.
11. A fidelidade a este Mandamento Novo transforma o mundo. Onde reina o amor cristão, as feridas da humanidade começam a cicatrizar.
O ódio perde força, a vingança se apaga, e a paz floresce. O amor não conquista com espada, mas com perdão; não domina, mas serve.
12. Amar como Cristo é morrer um pouco a cada dia. É calar quando se é ofendido, é rezar pelos que nos perseguem, é esperar com paciência quando tudo parece perdido. Este amor não é fraco; é força divina disfarçada de mansidão.
13. O amor cristão é criativo. Ele não se limita ao que é justo, mas vai além: dá mais do que é pedido, acolhe mais do que é esperado, crê quando todos duvidam. É o amor que faz o impossível possível, porque é sustentado pela graça.
14. Este Mandamento Novo é, portanto, o caminho real da santidade. Quem o guarda, caminha com segurança; quem o esquece, desvia-se do Evangelho. O cristão é reconhecido não por símbolos externos, mas pela medida do seu amor.
15. No amor de Cristo, a Igreja encontra a sua alma. A sua missão no mundo não é dominar, mas servir; não é condenar, mas curar; não é acumular poder, mas distribuir esperança.
16. Cada vez que o amor é vivido com autenticidade, o rosto da Esposa de Cristo torna-se mais belo e mais luminoso.
Quem é o meu próximo?
17. Certa vez, um doutor da Lei, querendo justificar-se, perguntou ao Senhor: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29). A pergunta, revestida de aparência piedosa, escondia uma resistência antiga do coração humano: o desejo de limitar o amor.
18. O homem, ferido pelo pecado, busca fronteiras para a caridade, quer definir quem merece e quem não merece compaixão. Mas Cristo, o Bom Samaritano divino, destrói toda medida humana do amor e revela que o próximo não é uma categoria, mas uma decisão.
19. O próximo é aquele que está diante de nós, em qualquer circunstância: o pobre que estende a mão, o enfermo que espera um olhar, o inimigo que provoca dor, o irmão que erra e precisa ser acolhido. O amor cristão não escolhe os rostos: ama porque reconhece, em cada rosto, o reflexo de Deus.
20. O Evangelho do Samaritano é mais do que uma parábola; é um retrato da própria missão da Igreja. O levita e o sacerdote representam a tentação de viver uma religião sem compaixão — uma fé que observa regras, mas não se inclina sobre as feridas.
O Samaritano, ao contrário, encarna o coração de Deus, que não pergunta quem é o ferido, mas simplesmente o socorre.
21. Assim deve ser o discípulo de Cristo: capaz de se aproximar, de tocar, de cuidar. O amor cristão é proximidade. É presença que não foge, é tempo oferecido, é silêncio partilhado. Quem ama, aproxima-se; quem se afasta do irmão, afasta-se do próprio Deus.
22. O “próximo” não se define por afinidade, mas por necessidade. Onde há dor, ali há um chamado de Deus. Onde há sofrimento, ali o Senhor nos espera. Cada miséria humana é uma oportunidade de encontro com Cristo crucificado, que continua a gemer nos pobres e abandonados.
23. Ser próximo é tornar-se ponte. Num mundo dividido por muros de orgulho, preconceito e medo, o cristão deve ser construtor de comunhão. Ele não é juiz, mas servo; não é dono da verdade, mas testemunha do amor que salva.
24. Quantas vezes passamos ao lado dos caídos sem os ver! Quantas vezes, ocupados com as nossas certezas, ignoramos os clamores silenciosos que nos cercam! A parábola do Samaritano é um espelho no qual cada cristão é chamado a reconhecer as próprias omissões.
25. Amar o próximo é contrariar o instinto do egoísmo. É sair de si, quebrar a rigidez do próprio mundo interior e deixar que o coração seja moldado pela misericórdia. O amor é uma escola de saída: leva-nos sempre além de nós mesmos, até o limiar de Deus.
26. Que o cristão de nosso tempo redescubra a beleza de ser próximo. A fé não é refúgio, mas envio; não é torre, mas estrada. O amor não se aprende em livros, mas no caminho, quando nos detemos diante do sofrimento e dizemos, como o Samaritano: “Eu cuidarei de ti.”
Saciar o próximo através do nosso amor.
27. No coração do Evangelho ressoa esta voz do Senhor: “Tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber; era estrangeiro e acolheste-me.” (Mt 25,35). Estas palavras não são metáfora, mas julgamento. Elas revelam a verdade última sobre o homem: seremos medidos pela caridade.
28. No fim de todas as coisas, quando os reinos e as glórias do mundo se dissiparem, o amor permanecerá como único critério.
A misericórdia será a balança da eternidade. Aqueles que se inclinaram sobre os pobres reconhecerão, enfim, o rosto do próprio Cristo, pois Ele nunca se separa dos que sofrem.
29. O amor cristão não é sentimentalismo, mas serviço. Não basta comover-se diante da dor; é preciso agir. A compaixão verdadeira move as mãos, abre a casa, reparte o pão. O amor, quando é autêntico, sempre deixa marcas: as mãos sujas de trabalho, o coração ferido de ternura, a vida gasta em favor dos outros.
30. O Senhor identifica-Se com os pequenos, não por figura, mas por presença real. No pobre, Ele habita; no faminto, Ele espera; no exilado, Ele caminha; no doente, Ele sofre; no preso, Ele anseia pela liberdade. Quem se aproxima deles toca o próprio corpo de Cristo.
31. A caridade é a liturgia do cotidiano. Cada gesto de bondade é uma Eucaristia silenciosa oferecida no altar do mundo. Quando partilhamos o pão, tornamo-nos parte do milagre; quando visitamos o enfermo, entramos na casa de Deus; quando perdoamos, erguemos um novo céu no coração humano.
32. O amor ao próximo é a forma mais pura de adoração. De nada valem os cânticos se os ouvidos se fecham à dor do irmão; de nada servem os templos dourados se o pobre permanece à porta, invisível. A oração que agrada ao Senhor é aquela que nasce de mãos que servem.
33. Que o cristão não se canse de fazer o bem, ainda que o mundo zombeteiro o chame de ingênuo. O amor nunca é inútil, mesmo quando parece não dar fruto. Cada ato de caridade, por pequeno que seja, é semente lançada na eternidade.
34. A Igreja deve ser casa de acolhimento, mesa aberta, porto de misericórdia. Quando ela vive o Evangelho das obras, torna-se sinal do Reino, lugar onde os que têm fome de pão e de sentido encontram alimento para o corpo e para a alma.
35. No gesto de dar está o mistério da alegria. Quem reparte, enriquece-se; quem consola, é consolado; quem se inclina, é levantado pelo próprio Cristo. O amor multiplica o pouco, transforma o simples em eterno.
36. Recordai, filhos amados: um dia o Senhor vos dirá — “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.”
37. Que estas palavras guiem vossos dias e iluminem vossos corações, para que nenhuma oportunidade de amar seja perdida.
A promessa das bem-aventuranças quando amamos e quando somos filhos da misericórdia.
38. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” Estas palavras, pronunciadas no Monte das Bem-Aventuranças, são como um selo sobre o coração do Evangelho. A misericórdia é o rosto visível do amor divino e a marca do verdadeiro discípulo de Cristo.
39. Ser misericordioso é ver o mundo com os olhos de Deus. É olhar para o pecador e não enxergar apenas a culpa, mas a possibilidade de redenção; é contemplar o ferido e perceber, para além da dor, a dignidade que permanece intacta. A misericórdia não ignora o mal, mas o vence com o bem.
40. A misericórdia é a justiça do céu. Enquanto o mundo pesa e condena, Deus acolhe e restaura. Na lógica divina, perdoar não é fraqueza, mas força; é ato de criação, porque faz nascer o novo onde havia ruína.
41. A misericórdia começa no coração, mas não pode permanecer aí encerrada. Ela exige gestos, palavras e atitudes. Quem experimentou a compaixão de Deus deve torná-la presente nas suas relações: no lar, no trabalho, nas comunidades eclesiais. O coração que foi perdoado torna-se fonte que não pode deixar de jorrar perdão.
42. A misericórdia é o perfume do Evangelho. Quando a Igreja o exala, o mundo reconhece em seu aroma a presença de Cristo. Quando o perde, o Evangelho torna-se palavra árida, lei sem alma, rito sem vida. O cristão, pois, é chamado a ser instrumento dessa suavidade divina.
43. A misericórdia também é coragem. É preciso coragem para amar o que é imperfeito, para estender a mão ao inimigo, para crer que a graça pode florescer no terreno seco do pecado.
A misericórdia desafia o olhar frio da razão e faz do impossível uma semente de ressurreição.
44. O perdão é o cume da misericórdia. Não há ato mais divino do que perdoar. Quando o homem perdoa, ele se assemelha ao Pai que faz nascer o sol sobre bons e maus. Quem não perdoa permanece prisioneiro da própria dor; quem perdoa participa da liberdade dos filhos de Deus.
45. A misericórdia não é contrária à verdade, mas a sua plenitude. O amor que corrige é mais forte do que o amor que cala. Contudo, a correção deve nascer da compaixão e não da soberba. O médico que fere é aquele que deseja curar.
46. “Alcançarão misericórdia.” — Assim promete o Senhor. Ele não deixa sem recompensa os que se inclinam sobre as feridas do mundo. A misericórdia, ao ser praticada, já é bênção; e, no último dia, será coroa.
47. Que cada cristão seja, pois, artífice da misericórdia. Que a Igreja seja sempre casa de portas abertas, onde ninguém tema regressar, e onde a ferida do pecado encontre bálsamo de esperança. Pois só quem é amado pode, verdadeiramente, aprender a amar.
Os filhos do Pai, no caminho da perfeição.
48. “Sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito.” — Com estas palavras, o Senhor não nos impõe uma carga impossível, mas revela-nos o horizonte da nossa vocação.
A perfeição cristã não consiste na ausência de fraquezas, mas na plenitude do amor. Ser perfeito é amar como Deus ama.
49. O Pai não ama por medida, nem por mérito. Ele ama porque é amor. O Seu sol nasce sobre justos e injustos; a Sua chuva fecunda o campo do grato e do ingrato. Assim, a perfeição divina não é distância, mas proximidade. É amor sem fronteiras, misericórdia sem fim.
50. A santidade não é privilégio de poucos, mas destino de todos. Cada cristão, segundo o seu estado de vida, é chamado a participar da santidade do próprio Deus. Essa vocação não se cumpre em grandes feitos, mas na fidelidade cotidiana: na paciência com o difícil, na ternura com o pequeno, na constância do bem mesmo quando o mundo esquece o bem.
51. O amor é a estrada da perfeição. Não existe outro caminho. As virtudes, sem o amor, são apenas sombras; as obras, sem a caridade, são poeira levada pelo vento. Só o amor dá unidade ao coração e o faz espelhar o rosto do Criador.
52. Ser perfeito, pois, é deixar-se transformar pelo Espírito Santo. Ele é o fogo que purifica, a brisa que modela, a luz que guia. Ninguém atinge a perfeição por esforço humano, mas pela docilidade à graça. Quanto mais o homem se entrega a Deus, mais se torna imagem d’Ele.
53. A perfeição não está no rigor, mas na mansidão. O verdadeiro santo é aquele que sabe compreender e perdoar, que suporta o peso do outro com alegria, que oferece a própria dor como oração silenciosa. O amor não é altivo; é humilde como o pão partido, simples como a água que sacia.
54. No amor, até o sofrimento se transfigura. As cruzes que a vida impõe deixam de ser castigo e tornam-se comunhão.
O cristão, unindo suas dores às de Cristo, descobre nelas um caminho de santificação. Assim, a perfeição não é ausência de cruz, mas aceitação dela por amor.
55. O amor perfeito é aquele que permanece. Permanece nas noites escuras da fé, nos desertos da alma, nas incompreensões do mundo. Ele não depende do retorno, nem da gratidão. É amor que ama porque ama — reflexo puro do amor eterno do Pai.
56. Ser perfeito como o Pai é viver o Evangelho em toda a sua radicalidade: perdoar setenta vezes sete, servir sem recompensa, dar a vida sem esperar aplauso. A perfeição evangélica é fecundidade escondida, é bondade que floresce no silêncio.
57. Que cada cristão, em seu caminho, possa escutar esta voz que o chama: “Sede perfeitos.” Não como quem exige, mas como quem convida à plenitude.
58. Pois a perfeição a que somos chamados não é a do orgulho, mas a da caridade. É a semelhança com Aquele que, sendo Deus, fez-Se servo por amor.
“Num só coração e numa só alma” — o chamado a amar de coração.
59. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma.” (At 4,32) — Assim descreve o Livro dos Atos o primeiro respiro da Igreja nascente. Não se tratava apenas de uma união exterior, mas de uma comunhão profunda, nascida do Espírito Santo, que os fazia irmãos no amor e partícipes de um mesmo destino.
60. A verdadeira unidade não se constrói sobre interesses ou alianças humanas, mas sobre o amor de Cristo derramado nos corações. Onde o amor reina, as diferenças se tornam riqueza e as feridas encontram remédio. A comunhão é o milagre cotidiano que o Espírito opera no seio da Igreja.
61. A fraternidade cristã é sinal visível da presença de Deus no mundo. Quando os fiéis vivem como irmãos, o Evangelho torna-se credível. As palavras perdem força quando os corações se dividem; mas quando a caridade une, até o silêncio evangeliza.
62. Ser “um só coração e uma só alma” é mais do que conviver: é compartilhar a vida, os bens, as alegrias e as cruzes. É olhar o outro e ver nele uma extensão de si mesmo. É compreender que o bem do irmão é também o nosso bem, e que a dor dele clama pelo nosso cuidado.
63. A comunhão exige renúncia. É preciso morrer um pouco para o próprio ego, deixar cair as vaidades, abandonar as disputas. A unidade nasce do sacrifício: assim como o pão é um porque muitos grãos se deixam moer, a Igreja é uma porque muitos corações se deixam transformar pelo amor.
64. A caridade é o cimento da unidade. Sem ela, tudo desaba: as estruturas, os projetos, as palavras. A Igreja, que é Corpo de Cristo, só vive quando cada membro ama e serve. O amor é a respiração desse Corpo; sem ele, o organismo espiritual sufoca e se apaga.
65. A unidade da Igreja não é uniformidade, mas harmonia. Cada fiel tem sua vocação, cada comunidade sua missão, cada carisma sua beleza.
O Espírito Santo é o músico divino que, com notas diversas, compõe uma única melodia: a sinfonia da caridade.
66. Que esta unidade também se estenda ao mundo. A sociedade humana, dilacerada por divisões e violências, anseia por testemunhos de fraternidade autêntica. A Igreja deve ser farol e fermento de reconciliação, lugar onde todos os povos e raças encontrem abrigo sob a mesma promessa de amor.
67. “Um só coração e uma só alma” — este é o sonho de Deus para a humanidade. Desde o princípio, o Pai desejou que os homens vivessem como filhos e irmãos. O pecado dividiu; o amor de Cristo reúne. A missão do cristão é colaborar com esta obra divina, sendo construtor de pontes, não de muros.
68. Que cada comunidade cristã — paróquia, mosteiro, família — seja um reflexo dessa comunhão apostólica. Que o mundo, ao ver-nos amar-nos uns aos outros, reconheça que somos discípulos d’Aquele que deu a vida por todos. A unidade é o testemunho mais eloquente da verdade do Evangelho.
O nosso dever de amar os inimigos.
69. “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” (Mt 5,44) — Nenhuma palavra do Evangelho é mais exigente, nenhuma mais divina. O mundo, habituado à lógica da retribuição, não compreende esta ordem; mas quem conheceu o coração de Cristo sabe que o amor verdadeiro começa onde termina o amor humano.
70. Amar o inimigo é tocar o mistério de Deus. É amar como o Pai ama — aquele que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e derrama a chuva sobre justos e injustos. O cristão, ao perdoar, participa da própria eternidade de Deus, pois o perdão é o gesto mais próximo da eternidade.
71. O amor aos inimigos é o ponto de conversão do coração. Ele não se improvisa, nasce da oração. É preciso ajoelhar-se diante da cruz, contemplar Aquele que, crucificado, disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Só quem escutou estas palavras com fé é capaz de repetir o mesmo em silêncio, diante das próprias feridas.
72. Este amor não apaga a justiça, mas a purifica. O perdão não é indiferença ao mal, mas libertação dele. É recusar-se a ser moldado pela violência. Quem perdoa não nega a dor, mas decide não permitir que a dor tenha a última palavra.
73. Amar o inimigo é vencer o mal com o bem (cf. Rm 12,21). É uma vitória sem gritos, conquistada no segredo da alma. É o triunfo da mansidão sobre a raiva, da paciência sobre a vingança, da graça sobre o instinto.
74. Muitos julgam impossível este mandamento, mas o Evangelho não propõe o impossível — propõe o divino. A graça torna possível aquilo que a carne rejeita. É na cruz que o homem aprende o amor que não busca recompensa, que não exige correspondência, que não se cansa de começar de novo.
75. Aquele que ama o inimigo torna-se livre. O ódio aprisiona, o rancor corrói, mas o perdão liberta. Libertar-se do ódio é libertar o outro e a si mesmo. O perdão é chave que abre simultaneamente duas prisões.
76. O amor aos inimigos é também profecia. Num mundo dominado pela lógica da retaliação, o cristão que perdoa anuncia que outro Reino é possível. Ele planta sementes de reconciliação onde todos esperavam apenas deserto.
77. Este amor tem um preço. Ele custa lágrimas, silêncio, paciência e fé. É amor que sangra, mas que não desiste. É amor que, ferido, continua a abençoar. É o amor do Crucificado, que vence não matando, mas morrendo.
78. Amados filhos, não vos canseis de perdoar. Quem perdoa evangeliza com a própria vida. Que o Espírito Santo vos conceda esta força sobre-humana, que é também a mais humana de todas: a de amar até o inimigo, e de ver, mesmo no agressor, um irmão por quem Cristo derramou o sangue.
Permanecer no amor de Deus.
79. “Permanecei no Meu amor.” (Jo 15,9) — Eis a voz do Senhor que encerra e completa toda a lei, todos os profetas e todos os ensinamentos da Igreja: o amor é a raiz, o tronco e o fruto da vida cristã. Permanecer no amor de Cristo é viver em comunhão com Ele, fonte de toda verdade e de toda alegria.
80. Permanecer no amor significa não permitir que o coração se endureça. O mundo oferece tantas razões para fechar-se: dores, injustiças, ofensas e decepções. Mas o discípulo permanece firme, mantendo-se ligado à videira verdadeira, deixando que a seiva da graça fortaleça cada gesto de caridade.
81. Permanecer no amor é obedecer aos mandamentos de Deus, não como fardo, mas como expressão de liberdade. Quem ama permanece no bem, porque o bem é a expressão natural do amor. Quem ama verdadeiramente, naturalmente ama o próximo, partilha a vida, acolhe o fraco e consola o aflito.
82. O amor de Cristo é a luz que dissipa toda escuridão. Ele não elimina as dificuldades da vida, mas transforma-as em caminhos de santidade. Permanecer no amor é, portanto, caminhar mesmo nas trevas, confiando que a presença do Senhor ilumina cada passo.
83. Permanecer no amor é permanecer na esperança. Quem ama vê além das aparências, reconhece a promessa de Deus mesmo em meio ao caos e persevera, sabendo que o sofrimento não é o fim, mas oportunidade de santificação.
84. A vida do cristão é um contínuo permanecer no amor: nas pequenas ações do cotidiano, nos gestos invisíveis de compaixão, nas palavras de consolo e nas escolhas de perdão. Nada é pequeno quando é feito em amor; nada é perdido quando se permanece fiel ao amor.
85. Permanecer no amor exige vigilância e oração. A alma que ora permanece unida ao Senhor, encontra força para amar quando o mundo rejeita o amor, e persevera na bondade mesmo diante da ingratidão. A oração é o laço invisível que mantém o coração colado ao coração de Deus.
86. Permanecei no Meu amor também significa confiar na misericórdia divina. Mesmo quando a fraqueza nos faz cair, o amor de Cristo levanta-nos, cura-nos e fortalece-nos. Ele nunca se afasta do que ama; antes, convida sempre a regressar ao caminho da caridade.
87. O amor ao próximo, a caridade prática, a misericórdia ativa, o perdão generoso, a comunhão com os irmãos — tudo isso nasce do permanecer no amor de Cristo. Não há outra fonte de verdadeira paz, de verdadeira alegria, de verdadeira santidade.
88. Portanto, filhos amados, que esta Exortação Apostólica seja farol e guia: amar a Deus e ao próximo, com generosidade sem medida, é permanecer no amor de Cristo.
89. Que a Virgem Maria, Mãe da Caridade, vos ensine a permanecer fiéis neste amor; que o Espírito Santo vos sustente; e que cada ação, cada palavra, cada pensamento seja testemunho do amor que nos salva e nos une eternamente.
Assinado, dado e publicado em Roma, junto a São Pedro, no dia 9 de outubro do ano jubilar da esperança de 2025, na memória de São João Leonardo e primeiro do meu Pontificado.

