EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
AMOR PRO MISSIONE
DO SANTO PADRE
GREGÓRIO VII
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE O
AMOR À MISSÃO
PROEMIO
1. “Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49). Estas palavras do Divino Redentor ressoam hoje com urgência em uma humanidade marcada pela indiferença religiosa, pelo relativismo moral e pelo esquecimento da Divindade de Deus. O mundo moderno, embriagado pelas promessas efêmeras do progresso sem transcendência, esqueceu-se de que “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).
2. A Igreja jamais poderá renunciar ao mandato recebido do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Evangelizar não é uma possibilidade entre muitas atividades e ações da igreja; evangelizar é a primeira e única razão de existir a Igreja. Como São Paulo VI o disse na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi: “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade.”[1]
3. Em tempos nos quais tantos querem uma Igreja silenciosa, reduzida a mero organismo filantrópico ou instrumento ideológico, devemos nos recordar sempre que a missão primordial da Igreja é salvar as almas. Tudo o que nela existe é para conduzir os homens ao conhecimento da Verdade, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.
4. O coração do cristão não pode permanecer indiferente diante da perdição de tantos irmãos. A caridade não consiste apenas em alimentar os corpos, mas sobretudo em conduzir as almas à vida eterna. São João Crisóstomo advertia que “Nada há mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros”.
5. Vivemos uma época de tantos desertos espirituais. Há cidades repletas de luzes artificiais, mas mergulhadas em trevas profundas. Há multidões conectadas pelas redes digitais, mas profundamente isoladas de Deus. Há homens que dominam as máquinas, mas são incapazes de dominar as próprias paixões. Neste cenário, a Igreja é chamada a erguer novamente a lâmpada da Verdade. Não lhe é permitido adaptar o Evangelho às modas passageiras. A Verdade não muda. Cristo não muda. A doutrina não muda. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hb 13,8).
A igreja missionária por sua própria natureza
6. Desde o Cenáculo, em Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos sob forma de línguas de fogo, a Igreja ali nasceu como um igreja verdadeiramente missionária. O cristianismo não foi feito para permanecer enclausurado. A fé que não é anunciada, acaba por enfraquecer; a fé que não é testemunhada adoece, porque tudo o que não está firme na rocha, acaba por desmoronar.
7. A missão da Igreja não é fruto de entusiasmo humano, mas é um mandato divino. O Senhor enviou os Apóstolos não como filósofos de uma nova escola, mas como testemunhas da Ressurreição. O anúncio cristão não é mera reflexão moral; é a proclamação da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. O mundo contemporâneo sofre de uma crise profunda neste sentido. Muitos conhecem inúmeras informações, mas desconhecem a Verdade. Multiplicam-se tantas opiniões, mas desaparece a sabedoria. E é precisamente por isso que o apostolado torna-se ainda mais urgente. Pelo simples facto de que existem tantas mentes sedentas do anúncio do evangelho que nos são despercebidas, inclusive até nas nossas famílias e nas nossas amizades.
8. O Papa Sisto, em alusão ao seu primeiro mês de pontificado, define que: “a Igreja é chamada a ser uma luz que brilha na escuridão. Nossa missão é promover a unidade, não como uma uniformidade superficial”[2]. Estas palavras exprimem uma realidade incontestável: o cristão não pode viver acomodado enquanto tantas almas caminham sem direção e sem sentido. O cristão deve caminhar ao lado dessas almas e dar-lhes luz e ser um verdadeiro farol no caminho das noites escuras.
9. O missionário não anuncia a si mesmo: Não procura aplausos, nem popularidade e sequer prestígio. Ele anuncia Cristo Crucificado. São Paulo escrevia aos Coríntios: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para uns e loucura para outros” (1Cor 1,23). A evangelização sempre exigirá sacrifício. Não existe apostolado sem cruz. O missionário deve estar disposto a suportar as incompreensões, as perseguições e as humilhações do mundo. O próprio Senhor já nos havia advertido: “Se o mundo vos odeia, sabei que antes odiou a mim” (Jo 15,18).
10. Quantos santos consumiram suas vidas pela missão? Vide São Francisco Xavier, homem que percorria mares e continentes para anunciar Cristo às nações pagãs; vide Santa Teresinha do Menino Jesus, sem jamais deixar o convento, tornou-se padroeira das missões através da força da sua oração e do testemunho do seu sacrifício. Sem falar de São Maximiliano Kolbe que utilizou os meios de comunicação daquele tempo para difundir a verdade católica, e já na geração tão atual, São Carlo Acutis que alcançou o mundo anunciando os milagres Eucarísticos. Cada época possui as suas razões e os nossos tempos atuais são um desafio para a nossa fé.
O serviço à Igreja e a expressão de amor a Cristo
11. Amar a Igreja é amar Cristo. Não pode haver verdadeiro amor ao Senhor separado da fidelidade à Sua Esposa. Muitos afirmam amar Jesus, mas desprezam a Sua Igreja; tal amor é incompleto e contraditório. Nosso Senhor confiou a São Pedro as chaves do Reino dos Céus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Desde então, a Igreja permanece como coluna e sustentáculo da verdade (cf. 1Tm 3,15).
12. O serviço à igreja não é a procura ativa de honrarias. Toda a função dentro da Igreja é um verdadeiro ministério de humildade. Quem serve ao altar deve lembrar-se de que o Filho de Deus lavou os pés dos discípulos. O verdadeiro líder cristão não domina, mas serve. Quantos homens e mulheres escondidos sustentam a Igreja com sacrifícios silenciosos? Quantos Catequistas, ou talvez, sacristãos, religiosos, consagrados, ministros, missionários, jovens, pais que ensinam a fé aos seus filhos, tantos sacerdotes que passam horas no confessionário. O Céu conhece seus nomes, ainda que o mundo os ignore e os recuse.
13. Na Encíclica Ego sum via, veritas et vita, o Papa Sisto afirma que “A Igreja não é apenas uma instituição, mas a família de Deus, que caminha unida rumo à salvação”.[3] Esta afirmação recorda a natureza da Igreja: ela não é uma obra dos homens, mas é o mistério nascido do lado aberto de Nosso Senhor Jesus Cristo. É preciso resistir à tentação do individualismo espiritual. O cristão isolado enfraquece-se. Ninguém se salva sozinho. A fé católica é essencialmente comunitária, sacramental e apostólica. São Cipriano de Cartago dizia que: “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe”. Esta verdade permanece atual num tempo em que tantos desejam uma espiritualidade sem doutrina; uma religião sem cruz; uma fé morta e sem compromisso.
O apostolado digital como o novo campus de evangelização
14. A Providência Divina permitiu que a humanidade chegasse a uma era de comunicação instantânea. As plataformas digitais tornaram-se um novo areópago, semelhante à praça de Atenas onde São Paulo anunciou o Deus desconhecido. Muitos lamentam os males presentes nas redes sociais: superficialidade, vaidade, agressividade, mentira, impureza e tanta blasfêmia. E de facto, tais perigos existem. Porém, precisamente por isso, os filhos da Igreja não podem abandonar estes espaços e cedê-los às forças do erro. Se tantos utilizam os meios digitais para difundir confusão, tanto mais os católicos devem utilizá-los para proclamar a Verdade. O silêncio dos bons fortalece a audácia dos maus.
15. O apostolado digital não é inferior às formas tradicionais da missão. Uma mensagem inspirada pela graça pode tocar uma alma distante; um incentivo pode reacender a fé de quem esteja longe dela; um simples diálogo pode impedir um pecado grave e até pode salvar alguém do desespero. Contudo, advirto-lhes, meus irmãos: aquele que toma o compromisso de evangelizar, ainda que digitalmente, deve evitar transformar o apostolado em um espetáculo ou um simples roleplay. A missão não é um passatempo mundano. Não anuncia a própria imagem, mas, anuncia a glória de Deus e a misericórdia divina para um pecador necessitado do Cristo.
16. Quantos perigos ameaçam o apostolado virtual? A busca desenfreada pela própria aprovação entre todos, a vaidade, embora disfarçada de zelo, sendo tóxica, o orgulho intelectual, as discussões inúteis, a agressividade verbal e a tentação de diluir a doutrina para agradar ao público. O verdadeiro modus operandi da evangelização digital deve unir a clareza da fé e caridade. Deve falar com certeza, mas sem ódios; com coragem, porém sem soberba; com autoridade e sem vaidade. São Francisco de Sales dizia que: “Uma colher de mel atrai mais moscas do que um barril de vinagre”. A verdade deve ser anunciada integralmente, mas sempre iluminada pela caridade, só isto basta para o começo de um caminho.
17. O Cardeal Agnelo Arns, na sua carta ao Papa Bonifácio, afirmou ter dedicado sua vida “ao apostolado virtual, tudo foi feito de forma justa e ordenada, com o intuito de enaltecer o apostolado virtual” . Estas palavras revelam que também no ambiente digital é possível exercer o verdadeiro serviço missionário quando tudo é voltado para a glória de Deus. Não basta ocupar as plataformas digitais; é necessário santificá-las pela presença de cristãos que se responsabilizem pelo anúncio do Evangelho e do Cristo Ressuscitado. A digitalidade necessita de homens e mulheres missionários santos, capazes de unir competência intelectual, a profundidade espiritual e a fidelidade doutrinal.
A fidelidade em tempos de conflito
18. Um dos maiores dramas do nosso tempo é a perda do senso da verdade. Muitos afirmam que todas as religiões são iguais, que toda moral é relativa e que a verdade depende das opiniões individuais. Este pensamento conduz inevitavelmente ao caos. A missão da Igreja consiste precisamente em proclamar a Verdade em meio às sombras do relativismo. Cristo não disse: “Eu sou uma verdade”; Ele declarou: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).
19. Evangelizar implica também corrigir erros. A caridade não é cumplicidade com a mentira. O médico que esconde a doença do paciente não o ama verdadeiramente. Assim, também o pastor que se silencia diante do pecado abandona suas ovelhas ao perigo. A evangelização deve conduzir à conversão. Não basta oferecer mensagens motivacionais revestidas de linguagem religiosa. O Evangelho exige mudança de vida, exige uma penitência onde se conclame o abandono do pecado e ocorra o retorno à graça. São Pio X tantas vezes advertia contra os erros do modernismo, chamando-os de “síntese de todas as heresias”. Também hoje surgem tentativas de adaptar a doutrina católica às ideologias contemporâneas. Mas a Igreja não é proprietária da Verdade; ela é a sua guardiã.
20. Hoje todos aqueles que evangelizam nas plataformas digitais devem compreender que o apostolado não é uma brincadeira, mas é um compromisso com a verdade: e isso exige preparação. Pois quem anuncia Cristo sem conhecer a fé, corre o risco de transmitir opiniões pessoais em vez da doutrina e da verdade. A oração, o estudo bíblico, o Catecismo, os documentos do Magistério e a vida sacramental são indispensáveis para todos. Não existe fecundidade e nem missão sem vida interior.
Maria, ponto firme e estrela da Evangelização
21. Nenhuma reflexão sobre a missão da Igreja estaria completa sem olhar para a Bem-aventurada Virgem Maria. Ela foi a primeira missionária, levando Cristo no seu ventre até à casa de Isabel. Maria não buscou protagonismo. Toda a sua existência apontava para o Filho: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Eis o primeiro modelo perfeito de todo o apostolado.
22. Nos momentos de crise, e ao longo de todos os momentos difíceis, a Igreja sempre encontrou em Maria o seu refúgio seguro. Ela permanece como a Estrela da Evangelização, conduzindo os homens ao Coração de Cristo. Quantos missionários encontraram força no Rosário? Quantas almas foram convertidas pela intercessão silenciosa da Virgem Santíssima? Quem deseja evangelizar sem Maria dificilmente perseverará. Que sejamos profundamente marianos. Que não tenhamos vergonha de proclamar a beleza da pureza, da oração, da penitência e da devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Exortação à Igreja por um tempo propício de missão
23. Filhos amadíssimos, a Igreja necessita de almas ardentes. O mundo não será transformado por cristãos mornos. O Senhor busca homens e mulheres dispostos a consumir-se pelo Evangelho. Não tenhais medo de evangelizar. Não tenhais medo de defender a verdade. Não tenhais medo de ser católicos integralmente. O mundo poderá ridicularizar-vos, mas Cristo jamais abandona aqueles que combatem por Seu Nome. Sejais missionários em vossas famílias, em vossos trabalhos, em vossas paróquias e também nas plataformas digitais. Cada palavra pronunciada por amor a Cristo possui valor para a eternidade.
24. Que os sacerdotes sejam santos. Que os religiosos sejam fiéis. Que os leigos sejam corajosos. Que os jovens sejam puros. Que todos compreendam que a maior tragédia da humanidade não é a pobreza material, mas a ausência de Deus. A Igreja continuará sua missão até o fim dos tempos. As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Em meio às tempestades da história, a Barca de Pedro segue adiante porque Cristo permanece em seu interior e é Ele o timoneiro desta barca.
25. Conclamo todos a rezarem comigo a oração pela santificação da missão e da Igreja, confiando-a à intercessão da gloriosa e sempre Virgem Maria, Mãe da Igreja:
ORAÇÃO
Ó Senhor Jesus Cristo,
Pastor eterno das almas,
que confiastes à Vossa Igreja
a missão sublime de anunciar o Evangelho a todas as criaturas,
inflamai nossos corações
com o fogo ardente da caridade apostólica.
Fazei-nos missionários corajosos,
fiéis à Verdade, obedientes ao Magistério
e perseverantes no serviço da Santa Igreja.
Guardai-nos do orgulho,
da vaidade e da tibieza espiritual.
Que jamais procuremos nossa própria glória,
mas unicamente a expansão do Vosso Reino.
Santificai os meios de comunicação,
as plataformas digitais
e todos os ambientes onde as almas buscam sentido para viver.
Que nesses lugares resplandeça a luz do Evangelho.
Ó Maria Santíssima,
Estrela da Evangelização,
cobri-nos com vosso manto materno
e conduzi-nos sempre ao Sagrado Coração de Jesus.
Que São Pedro, São Paulo,
São Francisco Xavier,
São Maximiliano Kolbe
e todos os santos missionários intercedam por nós.
E que um dia, terminada nossa peregrinação nesta terra,
possamos ouvir dos lábios do Divino Mestre:
“Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.” (Mt 25,21)
Amém.
Assinado, dado e publicado em Roma, junto a São Pedro, no dia 25 de maio do ano do Senhor de 2026, na memória da Bem-Aventurada Virgem Santa Maria, mãe da Igreja, e primeiro do meu Pontificado.
+ GREGORIUS PP. VII
Servus Servorum Dei
Servus Servorum Dei
[1] cf.Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975), Papa S. Paulo VI, §14
[3] cf. Carta Encíclica - Ego sum via, veritas et vita, Papa Sisto (antipapa) I, §28
