Carta aberta ao Cardeal Daniel Pedro Águeda por ocasião do falecimento do seu Pai na vida real

PAULUS, EPISCOPUS
SERVUS SERVORUM DEI

À Dom Daniel Pedro Águeda,

Meu querido irmão em Cristo e meu primo, por consideração e amizade,

Não encontro, neste momento, palavras suficientemente grandes para te dizer aquilo que o coração talvez precise de ouvir. Há momentos em que a dor é tão profunda que qualquer palavra parece pequena diante do silêncio de uma despedida. Hoje, enquanto te despedes do teu Pai, do teu companheiro, do teu exemplo e, como tantas vezes o chamaste, do teu “herói”, quero apenas estar contigo, não para tentar explicar a dor, mas para a partilhar contigo, ainda que à distância.

O teu Pai partiu neste domingo, às vésperas da Festa de São Bartolomeu, Apóstolo. E talvez seja precisamente a fé que nos permita olhar para este momento não apenas com as lágrimas da despedida, mas também com a esperança que nasce da Ressurreição de Cristo. Porque, para nós, cristãos, a morte não possui a última palavra. A última palavra pertence à Vida.

Recordo, neste momento, aquela bela expressão atribuída a São Bartolomeu: “A morte não é nada. Apenas fiz a passagem para o outro lado: é como se estivesse escondido no quarto ao lado. Eu sempre serei eu e tu serás sempre tu.” Que estas palavras possam permanecer contigo nos próximos dias. O teu Pai não deixou de existir; apenas atravessou aquela porta que, um dia, todos nós atravessaremos. A separação é dolorosa, o silêncio pesa e a saudade aperta, mas a esperança cristã diz-nos que a morte não é um abismo sem retorno: é uma passagem para a eternidade.

O próprio Senhor nos prometeu: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá.” (Jo 11, 25). É nesta promessa que hoje devemos permanecer firmes. Não numa esperança vaga, mas na esperança concreta de Cristo Ressuscitado, que venceu a morte e abriu para nós as portas da Jerusalém Celeste.

São João Paulo II, tantas vezes tão próximo daqueles que sofrem, recordava-nos que “a esperança cristã não é uma simples expectativa de um futuro melhor, mas a certeza de que Deus nos acompanha e nos conduz à vida eterna.” E é precisamente essa certeza que desejo que te acompanhe agora: Deus não abandona os Seus filhos na hora da dor. Ele está contigo no silêncio, nas lágrimas, nas lembranças e até naquele momento em que faltarão forças para rezar.

Talvez agora te recordes de tantas coisas: da voz dele, dos seus conselhos, dos momentos vividos em família, das pequenas coisas que antes pareciam tão comuns e que agora se tornam preciosas. Guarda tudo isso. Guarda-o não apenas como memória de alguém que partiu, mas como testemunho de alguém que fez parte da tua história e ajudou a construir o homem que és hoje.

Há uma frase de Santo Agostinho que sempre me parece particularmente bela diante da morte: “A morte não é nada. Apenas passei para o outro lado.” E, embora a saudade permaneça, sabemos pela fé que aqueles que amamos não estão perdidos para sempre. A nossa esperança é o reencontro em Deus, na comunhão dos santos, onde já não haverá pranto, nem sofrimento, nem morte.

Como diz o Apocalipse: “Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte, nem luto, nem pranto, nem dor.” (Ap 21, 4). Essa é a nossa esperança. Um dia, na Jerusalém Celeste, junto dos santos, dos anjos e sob o olhar maternal da Santíssima Virgem, estaremos novamente reunidos na alegria que não tem fim.

Meu irmão, chora se precisares de chorar. Silencia se precisares de silêncio. Recorda se precisares de recordar. Não tenhas vergonha da tua dor. O próprio Cristo chorou diante do túmulo de Lázaro. A fé não nos torna indiferentes à morte; pelo contrário, ensina-nos a amar ainda mais profundamente aqueles que Deus colocou no nosso caminho.

E porque sei que estes dias serão particularmente difíceis para ti, quero também dizer-te, com toda a consideração e fraternidade, que não tens qualquer obrigação de estar presente, de responder, de organizar, de decidir ou de assumir responsabilidades junto do nosso apostolado. Por bem, conceder-te-ei nestes dias toda a licença necessária para viveres o teu luto em silêncio, recolhimento e tranquilidade. Deixa, por agora, os serviços, as responsabilidades e os compromissos. A Igreja, os teus irmãos e todos aqueles que te estimam podem esperar. O teu Pai, neste momento, não.

Que Nossa Senhora, Mãe das Dores e Mãe da Esperança, esteja junto de ti e da tua família. Que Ela, que conheceu a dor de permanecer junto da Cruz e de contemplar a morte do próprio Filho, compreenda aquilo que nenhuma palavra humana consegue explicar. Que São Bartolomeu, cuja festa celebramos nestes dias, interceda pelo teu Pai diante do trono de Deus.

E que o Senhor lhe conceda o descanso eterno, faça resplandecer sobre ele a Sua luz e o receba na morada dos justos.

“Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, e brilhe para ele a luz perpétua. Descanse em paz. Ámen.”

Meu querido irmão, neste momento não estás sozinho. Leva contigo a certeza de que há quem reze por ti, pela tua família e, sobretudo, pela alma do teu Pai. Que a tua dor seja amparada pela fé, que a tua saudade seja transformada em gratidão e que, no meio destas lágrimas, permaneça acesa a esperança de que a morte não é o fim da história, porque em Cristo a vida vence sempre.

Um abraço fraterno, em Cristo e na esperança da Ressurreição.

Que Deus receba o teu Pai na Sua infinita misericórdia e que Nossa Senhora te cubra com o seu manto neste momento de dor.

Com oração, amizade e profunda consideração,

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 24 de agosto do ano do Senhor de dois mil e vinte e seis. Primeiro do meu Pontificado, Festa de São Bartolomeu Apóstolo

+ PAULUS PP. VII
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