DOM GIUSSEPE BERTONI SCHERER CARDEAL MONTINI
A mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica
Prefeito do Dicastério para os Bispos
Prefeito do Dicastério para a Educação Católica
A todos que lerem, que Deus de misericórdia, conceda paz e bençãos.
Vossas Excelências,
A sociedade e este mundo em que vivemos, acabam nos colocando em situações que nos põe a espreita para fazer valer o nosso compromisso com a Santa Igreja, observando a real necessidade do outro, acolhendo-o e fazendo significar a nossa posição e a nós mesmos. Os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta, como criatura que é, multiplamente limitado, por outra sente-se ilimitado nos seus desejos, e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que não quer e não realiza o que desejaria fazer [1].
Diante disso, várias indagações é colocado em pauta para surgir como proposta de resignificar nosso posicionamento frente a nossa missão evangelizadora:
Estamos amando de todo coração o nosso próximo?
Estamos amando de forma fraterna e acolhedora?
Será que estamos perdendo a nossa sensibilidade e deixando de lado o nosso olhar cristão e missionário?
Essas e outras dúvidas sempre estarão em nosso encalço, puxando-nos a ficarmos atentos as nossas ações e refletir sobre o que estamos pensando. Devemos assumir uma responsabilidade de tamanha precedência para que possamos responder essas perguntas. O nosso olhar cristão deverá passar por uma mudança sem igual, fazendo com que o espírito de Deus que nos habita, seja atuante e a nossa verdadeira essência dada a nós, seja ativada. Estamos perseverantes no propósito que Deus nos deu? Demos a entrega total para evangelizar? Turbulências sem igual a que esse mundo nos entrega, sabemos e temos a consciência de que a nossa doação ainda continua tísica e parada. Como vamos nos doar inteiramente para a evangelização se estamos nos deteriorando por dentro e deixando o nosso real propósito de lado? Como vamos caminhar e ajudar o nosso próximo de todo o nosso amor se estamos esquecendo a nossa missão?
Temos que ter a consciência de que para um grande barco estar em atividade, não depende apenas do capitão, e sim também, dos tripulantes que ajudam e colaboram para o bom funcionamento do mesmo. Assim é nos ensinado que é dedicando cada vez mais atenção às chamadas do Espírito e numa intimidade sempre mais estreita com Cristo que a Igreja cumpre a sua missão profética de anunciar o Evangelho com coragem e entusiasmo. Esta missão, para a qual o Senhor ressuscitado chama os seus discípulos, os quais não a podem evitar, compete-vos de modo especial, queridos Irmãos no Episcopado, porque "a atividade evangelizadora do Bispo, que visa conduzir os homens à fé ou fortalecê-los nela, constitui uma exímia manifestação da sua paternidade" [2].
Vamos caminhar para o bem de toda a comunidade e que o Senhor nos abençoe para tal ato, fazendo que sejamos mais distribuidores de sua palavra. Olhe para os vossos e não se ceguem mediante a tanta barbúria que essa vida nos mostra, não ofusque, e sim seja luz, iluminando ao seu redor e a todos.
Assim sendo, olhemos para os fiéis, os que são os principais contribuintes para a nossa Igreja. Como nos é lembrado pela Comissão Teológica Internacional "desde o começo do cristianismo todos os fiéis tiveram um papel atuante no desenvolvimento da crença cristã" [3]. E como Bispos, temos o dever de ter uma postura cada vez mais humilde e de coração aberto, pois eles são o reflexo da obra de Jesus Cristo. Atendemos e voltemos o nosso olhar a eles e em especial aos mais necessitados e doemos de todo o nosso ser a eles. Olhemos para aqueles que muitas vezes não conseguem ter acesso e ser ativo a comunidade. Vamos levar a palavra do Senhor até elas e reacender a paixão do amor puro e santo de Deus para com elas.
O dom mais precioso que a Igreja pode oferecer ao mundo contemporâneo, desorientado e inquieto, é o de nele formar cristãos bem firmados no essencial e humildemente felizes na sua fé. A catequese há-de ensinar-lhes isto e ela própria daí tirará proveito: «O homem que quiser compreender-se a si próprio profundamente — não apenas segundo critérios e medidas imediatas, parciais, por vezes superficiais e só aparentes — deve aproximar-se de Cristo, com toda a sua inquietude e incerteza, sua fraqueza e pecaminosidade, sua vida e sua morte. Deve, por assim dizer, entrar n'Ele com tudo o que é em si mesmo, deve «apropriar-se e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo»[4]
Digo, que isto, é uma expressão da palavra divina de Deus, de sermos acolhedores e sempre estarmos de braços abertos para recebê-los e ajudá-los de bom grado. Sejamos mais simples e humildes para o nosso irmão e a nossa irmã, tornando o nosso coração mais terno e transparente. E, dessa forma, podemos sentir a manifestação de Deus em nossas vidas e regozijar o seu amor presente em nosso ser. Nós temos que ser mais fortes e perseverantes e que possamos trabalhar unidos para uma humanidade mais feliz e de um mundo mais humano.
Dado em Roma, no Gabinete do Dicastério para os Bispos, 02 de janeiro de 2022,
sob o reinado de Vicente I.
+ Dom Giussepe Bertoni Scherer Card. Montini
Camerlengo
Prefeito do Dicastério para os Bispos
Prefeito do Dicastério para a Educação Católica
Notas
[1] Constituição Pastoral “GAUDIUM ET SPES “, Papa Paulo IV, 1965.
[2] Discurso do Papa Bento XVI aos Bispos da Conferência Episcopal da República Democrática do Congo em visita “AD LIMINA APOSTOLORUM”, 2006.
[3] Comissão Teológica Internacional "Sensus fidei", 2014.
[4] Exortação Apostólica “CATECHESI TRADENDAE”, Papa João Paulo II, n. 2, 1979.
