EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
QUADRAGESIMAE MYSTERIUM
DO SUMO PONTÍFICE
LEÃO V
SOBRE A VIVÊNCIA QUARESMAL
Aos estimados irmãos no episcopado, no presbiterado e no diaconado; aos queridos leigos e a todos vós, que estas letras lerem, saudação, paz e bênção apostólica.
1. O tempo quaresmal é, para a Santa Igreja, um período privilegiado de conversão, oração e penitência. Desde os primeiros séculos, a tradição cristã tem valorizado este santo tempo como ocasião propícia para um retorno mais profundo ao Evangelho. A Palavra de Deus nos recorda: “Convertei-vos e crede no Evangelho”[1]. A Quaresma não se limita a uma observância externa, mas nos chama a uma verdadeira renovação do coração, conforme ensina o Senhor: “Rasgai vossos corações, e não as vossas vestes”[2].
2. Este sagrado período, que se estende por quarenta dias em memória do jejum de Cristo no deserto[3], nos conduz a um encontro mais íntimo com Deus, preparando-nos para celebrar com renovada fé o mistério pascal, centro de nossa redenção. Como afirma o Papa Bento XVI: “A Quaresma é um itinerário espiritual que nos conduz à comunhão mais plena com Cristo”[4].
3. Na história da Igreja, a Quaresma sempre foi um tempo de particular empenho espiritual e disciplinar. O jejum, a oração e a esmola são práticas que remontam às primeiras comunidades cristãs e que foram vivamente recomendadas pelos Santos Padres e Doutores da Igreja. São Leão Magno nos ensina que “a observância do jejum quaresmal não consiste apenas em abster-se de certos alimentos, mas em afastar-se de todo pecado” [5].
4. Em tempos modernos, muitas vezes marcados pelo materialismo e pelo afastamento dos valores espirituais, torna-se ainda mais urgente recordar a importância da penitência quaresmal como um meio eficaz de crescimento na fé. O Papa Pio XII, na Encíclica Mediator Dei, já alertava que “o homem moderno tem necessidade de reencontrar no silêncio e na penitência o caminho para Deus” [6].
I.
O chamado à conversão
5. Desde a pregação dos profetas até a proclamação de Cristo e dos Apóstolos, a conversão sempre esteve no cerne da vida cristã. São João Paulo II nos ensina que “converter-se significa deixar-se conquistar por Jesus e segui-lo”[7]. Não se trata apenas de um ato momentâneo, mas de um caminho contínuo de conformação a Cristo.
6. O Papa Francisco, em sua mensagem para a Quaresma de 2020, exortava: “Este é o momento favorável para renovar o encontro com Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo” [8]. Assim, cada leigo/a é chamado a uma revisão de vida, desapegando-se do pecado e aderindo ao Evangelho com sinceridade e ardor.
7. A conversão implica um esforço pessoal e comunitário. Como recordava São João Crisóstomo: “Não basta lamentar os pecados, é necessário também mudar de vida” [9]. Por isso, a Igreja nos exorta a uma prática mais intensa dos sacramentos, especialmente da Reconciliação e da Eucaristia, como meios eficazes para a renovação interior.
II.
A oração, jejum e esmola
8. A espiritualidade quaresmal está fundamentada nos três pilares apontados por Nosso Senhor: oração, jejum e esmola[10]. Estes elementos são essenciais para uma vivência autêntica da conversão.
9. A oração nos une ao coração de Deus, fortalecendo-nos em nossa jornada espiritual. Como dizia Santa Teresa d’Ávila: “A oração é um trato de amizade com Deus, com quem falamos frequentemente” [11].
10. O jejum, por sua vez, nos educa na sobriedade e na renúncia, ajudando-nos a dominar as paixões e a crescer na caridade. Como recorda São Basílio Magno: “O jejum é o alimento da alma” [12].
11. A esmola expressa concretamente o amor ao próximo, pois “a fé sem obras é morta”[13]. Os Padres da Igreja sempre ensinaram que a caridade para com os pobres é um caminho seguro para Deus. São João Crisóstomo nos adverte: “Não fazer misericórdia aos pobres é roubar deles” [14].
12. Cada um desses elementos não pode ser visto isoladamente. A oração fortalece o espírito, o jejum disciplina o corpo e a esmola abre nosso coração ao próximo. Assim, a Quaresma se torna um tempo de equilíbrio espiritual, em que a ascese pessoal se converte em verdadeira comunhão com Deus e com os irmãos.
III.
Renovação eclesial quaresmal e penitencial
13. A Igreja, como Mãe e Mestra, sempre nos exorta à renovação interior. O Papa Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum, lembra que a conversão social deve começar pela conversão pessoal [15]. Assim, a Quaresma deve ser um tempo de reflexão também sobre a justiça e a dignidade humana.
14. O Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, enfatiza a importância da renovação litúrgica e penitencial durante este tempo sagrado, para que os fiéis possam participar mais plenamente do mistério pascal [16]. Este chamado à renovação é especialmente urgente nos dias de hoje, em um mundo cada vez mais marcado pela indiferença religiosa e pelo afastamento dos valores cristãos. A Quaresma nos oferece a chance de reencontrar o essencial, reorientando nossas vidas para aquilo que realmente importa: a comunhão com Deus.
15. O sacramento da Reconciliação ocupa um papel central no processo de renovação espiritual. Este sacramento, por vezes negligenciado, é uma verdadeira fonte de cura e graça para os fiéis. São João Maria Vianney dizia: “Deus se apressa a perdoar; é o homem que demora a pedir perdão” [17]. Durante a Quaresma, os sacerdotes são chamados a dedicar tempo ao confessionário, acolhendo os penitentes com paciência e misericórdia, ajudando-os a redescobrir a alegria do perdão divino.
16. A vivência comunitária da fé também é essencial. As paróquias são chamadas a criar espaços de acolhimento e reflexão, promovendo atividades que ajudem os fiéis a aprofundar sua vida de oração e a viver a caridade em gestos concretos. Retiros espirituais, campanhas de solidariedade e momentos de adoração eucarística são instrumentos eficazes para fomentar a espiritualidade quaresmal.
17. Que a Igreja, Mãe amorosa, continue a guiar seus filhos neste caminho de conversão, sendo luz e esperança para todos os que buscam a verdade. Como nos exorta São João XXIII: “A Igreja deve ser o lugar onde se encontra a paz verdadeira, um refúgio para os corações que anseiam por Deus” [18].
IV.
O olhar do fiel no mundo contemporâneo
18. Em um mundo marcado por crises econômicas, sociais e espirituais, a Quaresma nos desafia a ser testemunhas do amor transformador de Cristo. Cada cristão é chamado a ser sal da terra e luz do mundo, vivendo os valores do Evangelho com coragem e integridade. Como ensina Nosso Senhor: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus”[19].
19. A prática do jejum e da abstinência, à primeira vista simples, tem um significado profundo no contexto contemporâneo. É um protesto silencioso contra a cultura do excesso e do consumismo, uma forma de nos solidarizarmos com aqueles que sofrem e de testemunharmos a importância do desapego às coisas materiais. Além disso, nos tempos atuais, o jejum também pode se manifestar em renúncias digitais, reservando momentos para nos desconectarmos das distrações e nos conectarmos com o essencial: Deus e o próximo.
20. A esmola, como expressão concreta da caridade, deve ser vivida de forma ampla. Em nossas sociedades, onde as desigualdades são muitas vezes alarmantes, o chamado à justiça social torna-se uma dimensão intrínseca da vivência cristã. Não basta apenas aliviar o sofrimento imediato; somos chamados a trabalhar por uma transformação estrutural que promova a dignidade de todas as pessoas, especialmente dos mais vulneráveis. Como dizia São Óscar Romero: “Se ajudarmos o pobre, estamos ajudando a Deus que vive nele” [20].
V.
Dimensão escatológica da Quaresma
21. A Quaresma não é apenas uma preparação para a Páscoa, mas também um convite a elevarmos nossos olhos para a eternidade. É um tempo que nos recorda que a nossa verdadeira pátria não está neste mundo, mas na Jerusalém celeste. Como dizia São Paulo: “Sabemos que se a nossa habitação terrestre, esta tenda, for destruída, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna nos céus”[21].
22. A liturgia quaresmal, com seus ritos e símbolos, nos ajuda a meditar sobre os últimos fins — morte, juízo, inferno e paraíso — e a preparar nosso coração para a glória da ressurreição. O tempo quaresmal nos ensina que, ao seguirmos Cristo na cruz, participamos também de sua vitória sobre o pecado e a morte.
23. A ressurreição de Cristo, celebrada na Páscoa, é o centro de nossa fé e o fundamento de nossa esperança. Como afirmou o Papa São João Paulo II: “Não tenhais medo! Abri as portas a Cristo!” [22]. Essa exortação nos lembra que a Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de esperança alegre, pois prepara nossos corações para a plenitude da vida em Cristo.
24. Queridos irmãos e irmãs, ao longo desta exortação, fomos chamados a contemplar as riquezas espirituais e os desafios do tempo quaresmal. Este é um itinerário de fé, esperança e caridade, que nos conduz à comunhão mais profunda com Deus e com os irmãos.
25. Invoco sobre todos vós a intercessão da Santíssima Virgem Maria, Mãe da Igreja, para que vos acompanhe nesta caminhada de conversão, iluminando vossos passos e fortalecendo vossa fé. Que possamos, ao final desta jornada, experimentar a alegria da Páscoa com os corações renovados.
26. Envio a todos a minha bênção apostólica, com o desejo sincero de que este tempo de graça traga frutos abundantes em vossas vidas.
27. Que Cristo ressuscitado seja a luz que ilumina vossa caminhada e a força que vos sustenta em todas as circunstâncias, em prol da unidade que a igreja no Habblet Hotel nos momentos turbulentos que enfrenta.
Dado em Latrão, sede apostólica e Diocesana de Roma, aos 15 dias de março do ano do Senhor de 2025, Jubileu da Esperança e primeiro do meu pontifícado, no sábado da 1ª semana da Quaresma.
Referências:
[1] cf. Mc 1,15
[2] cf. Jl 2,13
[3] cf. Mt 4,1-11
[4] Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 2007.
[5] São Leão Magno, Sermões.
[6] Pio XII, Encíclica Mediator Dei, 1947.
[7] João Paulo II, Redemptoris Missio, 46.
[8] Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma, 2020.
[9] São João Crisóstomo, Homilias.
[10] cf. Mt 6,1-18
[11] Santa Teresa d’Ávila, O Livro da Vida.
[12] São Basílio Magno, Homilia sobre o Jejum.
[13] cf. Tg 2,26
[14] São João Crisóstomo, Obras.
[15] Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum, 1891.
[16] Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium.
[17] São João Maria Vianney, Sermões.
[18] São João XXIII, Discursos.
[19] cf. Mt 5,16
[20] São Óscar Romero, Homilia, 1979.
[21] cf. 2Cor 5,1
[22] João Paulo II, Homilia inaugural, 1978.

