Testamento Espiritual | Por ocasião da Morte do Papa Emérito Leão

TESTAMENTO ESPIRITUAL 
DO SANTO PADRE EMÉRITO, 
LEÃO V

À medida que se aproxima o meu encontro definitivo com o Senhor, e como um humilde servo que retorna à casa do Pai, desejo deixar por escrito este testamento espiritual, carregado de gratidão, de reflexão e de profunda emoção.

Sinto em minha alma uma tristeza serena, semelhante àquela vivida por Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, quando suou sangue e foi consolado por um Anjo. O abandono, o silêncio, a dor e a entrega se tornaram companheiros inseparáveis ao longo da minha missão. No entanto, carrego também no peito a esperança firme na promessa da Vida Eterna.

Em minha peregrinação sobre esta terra, vivi alegrias intensas e consolações profundas, mas também experimentei traições dolorosas, incompreensões amargas e provas duríssimas, sobretudo da parte daqueles que, tendo recebido o meu afeto e confiança, responderam com ingratidão e dureza. Guardo no coração as lágrimas vertidas em noites de oração, as feridas escondidas pela caridade e os silêncios carregados de dor. Apesar de tudo, sigo adiante com a certeza de ter cumprido, ainda que imperfeitamente, a missão que me foi confiada pelo Senhor.

Entrego-me agora à misericórdia do Senhor, mesmo sem respostas para as perguntas que me acompanharam até aqui: Por que a divisão? Por que a busca desenfreada por poder? Por que o egoísmo que dilacera a fraternidade? Por que tantos corações endurecidos? Onde está o perdão, a humildade, a compaixão que o Evangelho nos pede? Essas perguntas ecoam no silêncio. Contudo, confio que um dia, face a face com o Salvador, terei a paz que o mundo não pôde dar.

Levo comigo uma dor pungente: o abandono dos meus próprios irmãos de sangue, com quem partilhei os primeiros passos da vida, sob o olhar terno de nossos pais, José Montini e Marie Eugenie. À memória deles elevo minha gratidão mais pura. Crescemos entre campos, risos, simplicidade e fé. A família Montini — Matteo, Thallys, Talisia, Rita e eu — hoje está desfeita, consumida por silêncios e distâncias. A saudade das refeições em comum, das histórias contadas ao entardecer, será comigo até o último suspiro.

E, mesmo assim, perdoo. Perdoo a todos os que, por ação ou omissão, feriram meu coração. Também eu falhei, e humildemente peço perdão àqueles que magoei, tantos outros com quem, por fraqueza ou precipitação, criei muros em vez de pontes. Diante do Justo Juiz, saberei acolher a sentença, confiando-me à sua infinita misericórdia.

Agradeço profundamente aos irmãos e filhos espirituais que caminharam comigo e, com fidelidade, partilharam o peso do ministério. Aos irmãos Mauro, Daniel, Leopoldo, Fernando, Lucas, Reys, Wesley, Welly — e tantos outros cuja lembrança permanece viva — o meu eterno afeto. Aos meus afilhados Artur, Carlo, Saxum, José Maria da Cruz, Romano: sede luz, sede sal, sede fiéis até o fim. Ao meu irmão espiritual José Ravassi, com quem partilhei confidências da alma, o meu obrigado mais profundo.

Tudo o que fui e fiz, fiz por amor à Santa Igreja. Toda a dedicação, todas as renúncias, todo o serviço — ofereci-os por Cristo, com Cristo e em Cristo. Não desejo que a minha partida seja motivo de lamento, mas de renovada esperança na Ressurreição. Conservai os valores que defendi, as verdades que proclamei, o zelo que tentei incutir, mesmo nos meus momentos de fraqueza.

À Santa Sé entrego, sem reservas, todas as minhas propriedades, templos, vestes, tronos e demais bens materiais. Que tudo seja preservado com dignidade, em favor da memória e do serviço eclesial, conforme a prudência do Património Apostólico e do Museu do Vaticano.

Quanto às minhas exéquias, rogo que sejam celebradas com simplicidade, como convém a um bispo emérito. Desejo ser velado com as vestes tradicionais, sobre o catafalco pontifício, e que a celebração seja acompanhada por todos os apostolados com quem tive contato ao longo da vida. Peço que meu corpo seja sepultado na Sé Catedral de Santa Maria Maior, sob o altar do Imaculado Coração de Maria, em um túmulo raso, modesto, onde apenas se leia: LEO.

Rogo aos amados sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e leigos: sede fiéis à Igreja, amai-a com ardor filial, servi-a com desvelo e santidade. Que não vos falte o ânimo, mesmo nas provações. Que a unidade prevaleça sobre as divisões, que o amor supere o ódio e que a Verdade resplandeça sempre.

Que este testamento seja publicado na hora da minha passagem para a eternidade.

Rezai por mim.
Uni-vos. Amai-vos.

Obrigado.

+ Leão V
Bispo Emérito de Roma
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