A todos aqueles que esta lerem,
saudação, paz e bênção em Cristo vivo e Ressuscitado.
"Não cesso de dar graças a Deus por vós, pela graça divina que vos foi dada em Jesus Cristo." (1 Cor 1,4)
Usando estas palavras de São Paulo Apóstolo, dirijo-me também a cada um de vocês neste dia em que dou por terminada a minha vida clerical, após nove anos de serviço (com uma interrupção entre 2018 e 2019).
Em primeiro lugar, quero agradecer a todos quantos passaram pela minha vida e nunca apontaram o dedo para me julgar. Ninguém é perfeito; todos temos as nossas imperfeições, e serei sempre a primeira pessoa a assumir isso. Sou imperfeito e não possuo qualquer perfeição ou exemplo aparente para quem quer que seja.
Meus amigos, os anos passam, envelhecemos, e a nossa vida dá voltas que, muitas vezes, nos limitam ao nosso próprio tempo. Nos tempos da pandemia, quando muitos de nós éramos adolescentes e outros já iniciavam a juventude, demonstrámos a nossa força e dedicação ao apostolado virtual.
Porém, uma verdade precisa ser dita: por mais que tentem sustentar qualquer clero, hoje, em pleno ano de 2026, todos os hotéis e cleros enfrentam crises profundas e têm diante de si o risco do seu próprio fim. A SICAR não será exceção.
Aquilo que fizemos aqui — e que muitos continuarão a fazer — não tem qualquer remuneração. Fazemo-lo de forma voluntária, porque amamos fazê-lo. Contudo, muitos mancham a imagem da Igreja Católica através de constantes conflitos internos e dos maus exemplos que oferecem. Começando por aqueles que pensam que a Igreja é uma qualquer associação de esquina e procuram introduzir nela todo o tipo de conteúdos e apologias de ideias mundanas.
A Igreja é de Cristo, sempre será de Cristo, e quem não está nela por Ele jamais O servirá verdadeiramente.
As rixas, as lutas, os insultos, as mágoas, as discórdias, os rancores e os ressentimentos nunca poderão prevalecer. E isso acontece, infelizmente, entre tantos clérigos que se odeiam, insultam, negam uns aos outros, difamam, ameaçam e até se dividem. Usando as palavras de São Paulo, questiono: "Estará Cristo dividido?" (1 Cor 1,13).
Chega ao fim a minha vida clerical. No início de 2017, interessei-me por integrar este meio. Embora, na minha realidade, eu seja uma mulher, fui aceite com uma personagem masculina para integrar o apostolado. Não imaginam o quão grata sou por me terem acolhido e caminhado ao meu lado. Independentemente de qualquer circunstância, fui aceite e abraçada nas minhas limitações.
É ao Cardeal Agnelo Arns que quero agradecer por todas as aprendizagens, pelo companheirismo e pelos ensinamentos que me dedicou ao longo destes anos.
Procurei sempre escutar os que estavam em baixo e abrir-me à escuta de todos. Infelizmente, nem sempre fui compreendido. Muitas vezes fui rotulado como membro de cúpulas; outras vezes insinuaram que eu era apenas mais uma personagem secundária associada ao Cardeal Arns — um absurdo.
Recordo-me tão bem da minha primeira ascensão ao Trono de Pedro, enquanto Papa João, em 2019, no Age Hotel. Era um dia de novembro, e jamais esquecerei quando pedi que construíssemos a Igreja de mãos unidas e corações ao alto.
Verdadeiramente, o pontificado em que me senti mais próximo e mais ativo foi, sem sombra de dúvida, o de Paulo IV, quando pude trabalhar lado a lado com os meus irmãos. João Paulo VI mostrou-me, por sua vez, que eu não devia confiar cegamente em ninguém. Já Inocêncio VI mostrou-me o sonho de uma Igreja unida, peregrina e sem medos. Um dos sonhos concretizados desde a minha primeira eleição: uma Igreja de mãos unidas e corações ao alto.
O meu agradecimento ao Cardeal Arns vai além da fraternidade. Ele foi mais do que um irmão. O primeiro abraço veio dele. Não esquecerei quando fui julgado com os nomes mais ridículos; nem o momento em que fui assediada, em 2020, e ele foi o primeiro a oferecer-me assistência, apoio e companheirismo.
Em 2021, quando o meu pai faleceu na vida real vítima da COVID-19, foi dele que recebi apoio e força. Isso foi algo único para mim.
Também não esquecerei os momentos mais difíceis da minha vida, quando ele foi o primeiro a chegar, abraçar-me e dizer: "Tudo ficará bem."
Obrigado, Agnelo — ou melhor, Abel — por todo o teu carinho e dedicação para comigo, mas também para com a nossa casa. Permanece e caminha ao lado dela neste momento em que ela tanto precisa de ti.
Agradeço também a tantos amigos. São tantos nomes e tantos rostos que não conseguiria enumerá-los aqui. Obrigado por acolherem uma "mulher" entre vocês e por me permitirem viver esta experiência da vida clerical.
Saio de coração aberto, mas também magoado, porque aquilo que mais se vê no clero virtual são conflitos, rivalidades e perseguições.
Isto realmente ultrapassou todos os limites: a luta constante pelo poder, a necessidade de se destacar e a pressa em subir posições. Que fique claro: ninguém é mais do que ninguém. Todos somos imperfeitos e ninguém é superior a ninguém. Ponto final. Esta é a verdade.
Despeço-me sem despedidas. Quem me conhece sabe que sempre fui assim.
Obrigado por toda a dedicação e por todo o carinho. O meu último pedido é que todos se reconciliem, resolvam as suas diferenças e voltem a falar uns com os outros.
Se estão aqui para fazer parte do apostolado e anunciar Cristo, então anunciem Cristo sem mágoas nem ressentimentos. O cristão perdoa. O cristão ama, independentemente das maiores dores, consequências ou sofrimentos que tenha enfrentado.
Concluo com uma frase de Santa Teresinha do Menino Jesus:
"Tudo passa. Deus não muda.
A paciência tudo alcança.
Quem tem Deus, nada lhe falta.
Só Deus basta."
Obrigado e até um dia.
Amar-vos-ei, meus amigos.
