Mensagem Quaresmal | 2026

P I V S ៸ E P I S C O P V S
S E R V U M   S E R V O R V M  D E I

Aos Cardeais, Bispos, Presbíteros e Diáconos;
Aos Consagrados, Consagradas, Religiosos e Religiosas,
Aos Ministros e Ministras, Fiéis e Leigos de Boa-Vontade,
E a todos e todas que esta minha MENSAGEM QUARESMAL lerem,
saúde, paz e bênção apostólica lhes cheguem em Cristo, nosso Senhor.

1. Ao aproximar-se o tempo da Quaresma, a Santa Madre Igreja, mestra de sabedoria e guardiã das almas, convida-nos novamente a subir com o Senhor ao deserto, a fim de que, purificados de coração, possamos celebrar dignamente os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor.

2. Recordamos as palavras de São Paulo: “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). Este tempo não é mera repetição de práticas exteriores, mas é um apelo urgente à conversão interior, à metanoia do coração, que nos reconduz à caridade perfeita, vínculo da unidade e plenitude da lei (cf. Cl 3,14).

I.
A CONVERSÃO DE CORAÇÃO

3. Entre as muitas chagas que nos aflige, desejamos chamar a atenção para uma que, embora muitas vezes considerada leve, produz feridas profundas: o espírito de fofoca, da murmuração e da divisão.

4. A Sagrada Escritura nos adverte com toda a clareza de que: “A língua é um fogo” (Tg 3,6); e ainda: “Não andeis espalhando calúnias entre o vosso povo” (Lv 19,16). A palavra, criada para bendizer a Deus e ajudar-nos a edificar-nos, torna-se, quando desordenada, um instrumento de desagregação, suspeita e de autêntico escândalo.

5. Nosso Senhor nos ensina: “Por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mt 12,37). Não podemos ignorar que todas as palavras pronunciadas sem caridade ferem não apenas o nosso póximo, porém, igualmente a unidade da Igreja, que é una, assim como uno é O Senhor que a fundou.

6. Já o Magistério ensina-nos que a caridade é o princípio vital e vero da comunhão da Igreja. A Constituição dogmática Pastor Aeternus recorda-nos que a Igreja foi erigida por Cristo, como sinal visível de unidade e instrumento de salvação; é na unidade que se sustenta na verdade professada e a caridade vivida.

7. Portanto, exorto a todos vós, meus irmãos e minhas irmãs: jejuai não somente do alimento, mas também de todas as palavras vãs; abstende-vos não apenas da carne, mas também dos juízos temerários; renunciai não só ao supérfluo, mas também à tentação de alimentar típicas conversas que promovem a divisão, as suspeitas que corroem e comentários que humilham ao próximo ou até a nós mesmos.

II.
O VERDADEIRO JEJUM E O ALIMENTO DO AMOR

8. A verdadeira penitência não consiste apenas nas típicas mortificações exteriores, mas também na conformação do coração ao dócil e justo Coração de Cristo Jesus. O profeta já clamava: “Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (Jl 2,13).

9. Que este exôdo quaresmal seja para toda a Igreja um grande jejum da fofoca e do ódio que tanto nos toma. Jejuemos das palavras que diminuem o nosso irmão; jejuemos das críticas amargas que não constróem; jejuemos da indiferença que abandona os feridos à margem do caminho.

10. E, em lugar disso, alimentemo-nos do amor fraterno. Esse sim, é verdadeiro e é o espírito próprio deste tempo. Como escreve São Paulo: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Cl 3,13). E ainda: “Se possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos” (Rm 12,18).

11. O amor fraterno não é mera benevolência natural, mas participação na caridade divina derramada em nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5). Ele nos torna sustentáculos uns dos outros, verdadeiras colunas que amparam os vacilantes, levantam os caídos e consolam os aflitos.

12. Quantas comunidades podem se fortalecer quando um irmão escolhe silenciar a crítica e oferecer a compreensão! Quantas famílias reencontram a paz, quando alguém decide perdoar antes de exigir justiça! Quantas paróquias florescem quando os fiéis preferem cooperar a competir, servir a dominar, escutar a acusar!

13. Que esta Quaresma se torne um período autêntico de penitência e reconciliação, no qual possamos romper com o comodismo e o egoísmo, buscando ativamente o reencontro com aqueles que carregam mágoas ou ressentimentos em relação a nós. É momento de nos aproximarmos daqueles a quem tenhamos ofendido no passado ou com quem mantemos inimizades, superando as barreiras do ódio e da divisão por meio do perdão e da fraternidade. 

14. Que possamos transformar o calvário em um jardim florido, conferindo pleno significado à Ressurreição do Senhor, que nos une e fortalece no amor.

III.
A CASA DE MISERICÓRDIA E DO PERDÃO

15. É também a Igreja, por desígnio divino, sacramento de unidade e de reconciliação. Não podemos permitir que o espírito do mundo — marcado pelas polarizações, suspeitas e contendas — penetre em nossas relações, quer no interior das comunidades, quer no interior das nossas amizades pessoais.

16. O próprio Senhor nos deixou o mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13,34). Este amor é a medida e o critério da nossa autenticidade Cristã: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

17. Na Encíclica Quanta Cura, o Beato Pio IX, falou contra os erros que ameaçam a integridade da fé; hoje, porém, desejamos insistir também na integridade da caridade. A ortodoxia sem amor torna-se uma verdadeira dureza; o zelo sem misericórdia, converte-se em peso insuportável. A verdade e a caridade, inseparáveis, devem caminhar juntas sem dúvidas e sem incertezas.

18. Sejamos, então, meus irmãos e minhas irmãs, homens e mulheres da reconciliação. Busquemos o sacramento da Penitência com um único e verdadeiro espírito contrito; perdoemos do fundo do nosso coração aqueles que nos ofenderam; façamos o primeiro passo para restaurar as relações rompidas. Assim participaremos mais plenamente do mistério da Cruz, onde Cristo reconciliou todas as coisas consigo (cf. Cl 1,20).

IV. 
OS SUSTENTÁCULOS DO PRÓXIMO

19. Mas a Quaresma é também um tempo de esmola e de expressão concreta da caridade. Mas há uma esmola ainda mais preciosa: a do encorajamento, da escuta paciente, do conselho prudente e da oração. 

20. São Paulo nos recorda a verdadeira missão Cristã: “Levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2). Não sejamos espectadores das quedas alheias, mas, sejamos Cireneus que ajudam a carregar a cruz quando o nosso irmão esteja cansado; não juízes apressados, mas, irmãos compassivos que se amam e verdadeiramente caminham juntos no mesmo Credo.

21. Cada baptizado é chamado a ser uma pedra viva (cf. 1Pd 2,5). Quando nós sustentamos o nosso irmão, também fortalecemos toda a Igreja; já quando dividimos, enfraquecemos o testemunho do Evangelho e não levamos a sério a nossa missão enquanto Baptizados.

22. É urgente que as nossas comunidades se tornem verdadeiras escolas de concórdia, onde a diferença não seja um pretexto de ruptura, mas uma ocasião de enriquecimento mútuo sob a condução dos seus sacerdotes e dos seus bispos, pastores da messe do Senhor.

V. 
O CAMINHO PARA A PÁSCOA

23. À medida que avançamos rumo à Páscoa, contemplemos a Cristo crucificado, que, inocente, perdoou aos seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Se o Senhor perdoou na hora suprema da dor, como poderemos nós recusar o perdão nas pequenas contrariedades da vida cotidiana?

24. Esta Quaresma não pode passar em vão, muito menos pode ser uma quaresma como as passadas. Que esta seja um verdadeiro itinerário para a purificação da nossa própria língua, de uma verdadeira reconciliação do nosso coração e da renovação da nossa própria comunhão interior. Jejuemos da fofoca; alimentemo-nos da Palavra de Deus. Jejuemos do ódio; saciemo-nos do amor fraterno. Jejuemos da divisão; busquemos a concórdia.

25. Assim, renovados interiormente, poderemos celebrar a Páscoa como um povo reconciliado, unido na mesma fé, na mesma esperança e caridade, para glória de Deus e para a salvação do mundo.

26. Confiamos, portanto, este propósito à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, e São José, modelo do silêncio orante e caridade perfeita, para que nos acompanhem neste caminho de conversão e da penitência.

27. Com estes sentimentos, meus irmãos, concedo de todo o coração, a minha Bênção Apostólica, penhor de graças celestes e testemunho de paternal afeto, na esperança de que este tempo seja um tempo onde possamos parar, recordar a nossa fraqueza e saber lutar pela santidade e a abdicar dos nossos egoísmos e vaidades.

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia catorze de fevereiro do ano do Senhor de dois mil e vinte seis, primeiro do meu Pontificado.

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